Há males que vêm para o bem

Liu An 刘安 (179-122 AEC) era neto do imperador fundador da dinastia Han. A obra Huainanzi 淮南子, título e nome de seu reino, é considerada como um dos livros fundadores da religião daoísta. Toma como base o clássico anônimo Shan’hai jing [O livro da natureza], e Liezi para explanar a visão conceitual daoísta sobre o mundo, desde a gênese, incluindo preceitos e rituais religiosos.

Tendo em conta o ano auspicioso do cavalo, aproveito para publicar o conto Há males que vem para o bem.

Na região da fronteira norte uma família criava cavalos, tanto para lavrar a terra como para o transporte de carga.

Certo dia, um dos cavalos, não se sabe o porquê, desgarrou-se e saiu a galope para a direção da Mongólia.

— Que pena perder um ótimo cavalo, mas não fique chateado — diziam as pessoas, tentando consolar o velho dono dos cavalos.

— Agradeço a atenção de vocês. Quem sabe com a perda desse cavalo eu possa tirar algum proveito —respondia o velho a cada pessoa que vinha conversar com ele sobre a perda do animal.

Depois de alguns meses, o cavalo perdido voltou e trouxe com ele uma manada de cavalos mongóis.

— Parabéns! Você não só recuperou o cavalo que tinha perdido, como ainda conseguiu cavalos muito bonitos — felicitava quem tinha ficado sabendo da notícia.

— Obrigado! Mas não dá para comemorar o ganho desses belos cavalos. Pode ser que me tragam problemas — agradecia o criador desanimado.

Outros criadores vieram ver os belos animais que tinham vindo da Mongólia. Mesmo não conhecendo o temperamento desses animais, o filho do criador de cavalos não se conteve e montou num dos animais. Num descuido, o cavalo empinou, e o filho do velho caiu e quebrou uma das pernas.

— Sinto muito pelo acidente de seu filho — lamentou um dos vizinhos. — Mas o que se há de fazer? Coragem!

— É difícil dizer se é sorte ou azar. Quem sabe ainda possa tirar proveito deste infortúnio — comentou o velho criador.

No ano seguinte, os bárbaros invadiram a China pela fronteira norte, onde residiam os criadores de cavalos. Todos os homens jovens e fortes foram recrutados para a guerra. De cada dez, somente um retornava. O filho do criador de cavalos continuou vivo, graças à perna quebrada que o tinha impedido de servir.

Uma aparente desgraça talvez não seja desgraça e sim sorte; uma aparente sorte, talvez não seja sorte e sim desgraça. Apesar da opinião do velho não ser muito comum, ele tinha razão, porque sorte e azar andam juntos e o momento da guinada é incerta. (LIU, 1994, p. 474) (tradução Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli)

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Bole, o perito em cavalos 伯乐相马

Gravura em nanquim de Bole o perito em cavalo

Gravura em nanquim de Bole o perito em cavalo

Ao escrever um ensaio sobre cavalos na história antiga chinesa, encontrei uma pseudo-parábola da dinastia Tang. As fábulas e parábolas eram utilizadas pelos eruditos como um recado velado em períodos em que as coisas não podiam ser ditas às claras. Como fiquei com pena de excluir, registro a propósito aqui.

O literato Han Yu 韩愈 (768-824) comenta: “Por existir Bole, soubemos do corcel. Corcéis podem ser encontrados, enquanto Bole é único. Portanto, os corcéis convivem entre cavalos comuns na mesma baia, não sendo tratados com a dignidade que merecem. Um cavalo que pode percorrer mil quilômetros, às vezes pode comer muito de uma só vez. O tratador como desconhece o corcel, não sabe de sua necessidade e não lhe adiciona mais ração. Dessa forma, mesmo que o cavalo tenha a capacidade de andar longas distâncias, não tem forças para desenvolver todo o seu potencial por falta de uma dieta adequada, ficando inclusive o seu desempenho abaixo dos cavalos comuns. Quem dirá percorrer centenas de quilômetros por dia?!

O tratador não sabe a maneira correta de guiar o corcel, não lhe alimenta adequadamente e nem consegue interpretar os seus movimentos. Entretanto, com o relho em riste diz: ‘Não existe corcéis no mundo’. Ah! Será que não existem corcéis no mundo? Ou são esses homens que não reconhecem um bom corcel!  ”

《马说》韩愈
世上有了伯乐,然后才会有千里马。千里马经常有,可是伯乐却不会经常有。因此即使有千里马,也只能在仆役的手里受屈辱,和普通的马并列死在马厩里,不能以千里马著称。
一匹日行千里的马,一顿有时能吃一石食。喂马的人不懂得要根据它的食量多加饲料来喂养它。这样的马即使有日行千里的能力,却吃不饱,力气不足,它的的才能和好的素质也就不能表现出来,想要和一般的马一样尚且办不到,又怎么能要求它日行千里呢?
鞭策它,却不按照正确的方法,喂养它,又不足以使它充分发挥自己的才能,听它嘶叫却不能通晓它的意思。反而拿着鞭子走到它跟前时,说:“天下没有千里马!”唉!难道果真没有千里马吗?恐怕是他们真不识得千里马吧!
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Palestra de Hu Xudong no Festival Literário de Macau Rota das Letras

A palestra ocorreu em 24 de março de 2014 na Fundação Rui Cunha em Macau. Moderadores: Yao Jingming e Márcia Schmaltz

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Fábulas chinesas

Resenha crítica de Fábulas Chinesas.

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Contos Sobrenaturais Chineses

Resenha crítica do Contos Sobrenaturais Chineses.

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A urgência de contar

Resenha crítica aos Contos Sobrenaturais Chineses (2012).

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O corvo no campo de trigo

Zhong Lifeng, músico popular chinês iniciou a carreira nos anos 1990. O título desta música é inspirado no quadro “Campo de Trigo com Corvo” de Van Gogh, porém numa balada mais otimista e com floreio eletrônico, que lhe dá uma balada mais pop. A música é de 2006.

http://www.kuwo.cn/geci/l_251319

《麦田上的乌鸦》 – 歌词欣赏

词曲:钟立风     编曲:万晓利     吉他:孙辉       口琴:钟立风
合音:钟立风 配唱  制作人:李晓东 制作协力:张载毓       
录音:雷鹏(声音)  混音:刘宇(声音)

你是从很远很远的地方飞来的一只乌鸦
他们都不喜欢听你歌唱你寂寞的歌唱
你飞过了这个城市又路过了那个村庄
你黑黑的样子啊人们都以为你冷得像冰一样
一群孩子在阳光底下做着游戏又跳着舞
他们睁着黑黑的大眼睛不知道生命的痛苦
没有什么人能左右你飞行的方向
也没什么地方曾让你留连忘返
你又看到一群一群年轻人
他们意气风发赶路匆忙
还有那些美丽如花的姑娘
在春风秋雨里徜徉
呜……呀咿呀呜呜呀咿呀
这是一个一如既往的秋天
有着一如既往的阳光
你一如既往地飞翔着
看风儿又吹红了花朵
阳光从枝叶间漏下来落在流淌的小溪
牧羊少年把草帽盖在脸上
听树叶在风中鼓掌
这时迎面吹来了麦穗的芳香
麦浪就像大海一样
你眼前有一片一望无际的麦田
一直连到遥远的天边
呜……呀咿呀你自由地盘旋吧
呜……呀咿呀你快乐地歌唱吧
你歌唱着什么呀是生命是爱情
你歌唱着春夏秋冬这轮回不变的四季
歌唱着受伤的大地慈祥的母亲
歌唱着旅程的孤独美丽的错误
你歌唱着日月星辰戈壁荒漠
你歌唱着歌唱着歌唱着金色辽阔的麦田

你是从很远很远的地方飞来的一只乌鸦
他们都不喜欢听你歌唱你寂寞的歌唱
你飞过了这个城市又路过了那个村庄
你黑黑的样子啊人们都以为你冷得像冰一样

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