O TIGRE NO ANO DO DRAGÃO

Resumo: Este ensaio descreve a representação simbólica do tigre na cultura chinesa levando em consideração alguns aspectos antropológicos e literários para demonstrar a importância do felino com status similar ao do dragão neste modelo cultural.

Palavras-chave: Estudos culturais, tigre, cultura chinesa.

A personificação de animais tem sido objeto de estudos em vários campos das Ciências Humanas. Popularmente, a imagem da China é representada pelo dragão, mas o uso do símbolo era uma prerrogativa do imperador, tendo o tigre um papel menor no âmbito da representação simbólica. Nas últimas décadas, os achados em sítios arqueológicos parecem confirmar a hipótese de que o tigre seria um símbolo de utilização mais antiga e de maior prestígio em relação ao dragão[1]. Neste ensaio realiza-se um recorte pelo viés dos modelos culturais com pressupostos “[de] certos modelos de mundo que são amplamente compartilhados pelos membros de uma sociedade e que desempenham um papel importante na compreensão de mundo e no comportamento social de seus membros.”[2]. Através do recorte bibliográfico das áreas antropológica e literária, o ensaio arrola evidências significativas que demonstram a importância do tigre comparada à do dragão neste modelo cultural.

Uma lenda sobre o tigre

Tendo em conta que o habitat natural do tigre é a Ásia, registre-se que, antigamente, o felino era encontrado nas montanhas e florestas do nordeste, sul e sudoeste da China, em duas subespécies, o tigre-siberiano (panthera tigris altaica) e o tigre-do-sul-da-china (panthera tigris amoyensis). O felino é caracterizado pelo seu grande tamanho e pelagem de fundo alaranjado e listras pretas. Para os chineses, a composição das riscas na fronte do felino remete ao ideograma王wáng [rei][3], que lhe confere grau honorífico nesta cultura.

Uma antiga lenda chinesa[4] narra que, em períodos imemoriais, o tigre era o guardião da entrada do Palácio Celestial. A certa altura, as feras terrestres resolveram atacar as aldeias, causando grandes males à população, a tal ponto que nem o guardião terrestre conseguia contê-los, tendo que pedir socorro aos Céus. O felino foi destacado pelo Imperador Celestial para essa missão, que teve de consentir dar ao tigre a devida condecoração, caso conseguisse vencer as feras.

Chegando ao plano terrestre, o tigre constatou que o leão, o urso e o cavalo eram os animais mais ameaçadores à segurança humana. Logo, o felino os desafiou e, com a sua ferocidade, derrotou-as. Outras feras, ao saberem da superioridade do tigre, trataram de fugir para dentro das matas desabitadas, para de lá nunca mais saírem. O povo festejou a vitória e agradeceu ao tigre. Ao voltar ao plano celestial, o Imperador condecorou-o com três listras horizontais (三 sān, [três]) na fronte, simbolizando as três feras. Tempos depois, quando uma tartaruga gigante do mar Oriental liderou hordas de camarões e caranguejos no ataque à terra, mais uma vez foi enviado o tigre para reprimi-las. Ao exterminar a ameaça, o Imperador Celestial riscou uma linha vertical sobre as listras horizontais (三 sān [três]) já existentes na fronte do felino, formando o caractere 王 wáng [rei], conferindo-lhe o título de rei dos animais. Esta lenda corrobora a tradição de costurar a figura de tigre em peças de vestuário, ou esculpida em acessórios que são colocados nas entradas e saídas que funcionam como amuletos para afastar o mal, como alguns exemplos ilustrados nas figuras 1 a 5.

Achados arqueológicos

Nas escavações de sítios arqueológicos, foram achados vasos e máscaras de face humanas com listras de tigre datados de mais dez mil anos, fornecendo evidências para a consideração do felino como totem, ainda anterior ao dragão, criatura mitológica tradicionalmente vinculada como símbolo da China. Cao afirma que “a adoração pelo tigre, indica-o como “ancestral” de tribos primitivas que junto ao felino buscavam proteção para seus membros.[5]

Os achados arqueológicos indicam o Noroeste, que engloba as atuais províncias de Gansu, Qinghai e Shaanxi da China, habitado pelo povo Jiangrong, como a provável região de origem do culto ao tigre. Os antropólogos explicam que esse povo migrou gradativamente para o sul, em direção às províncias de Yunnan, Sichuan, Guizhou e Guangxi, e, para o leste, em direção à planície central[6] chinesa. A escavação de uma tumba em Puyang, na província de Henan, datando de cerca de 6.400 anos, se constitui como a primeira comprovação da reverência ao tigre e ao dragão como totem na cultura chinesa, anterior aos totens do pássaro, cão, lobo, cervo, búfalo e cobra, entre outros. O corpo de um provável rei foi encontrado entre duas figuras do tigre e do dragão, modeladas por conchas. O felino encontrava-se no lado esquerdo e o dragão, no lado direito. Como na tradição chinesa é conferida maior distinção social a esquerda do que a direita, este achado fornece indícios para a hipótese de maior reverência ao tigre como totem em comparação ao dragão, pelo menos até por volta de 8.000-5.000 AEC.

 

Um corpo achado entre tigre e dragão modelado por conchas de 6000 anos atrás. Fonte: Cao (1998:10)

Um corpo achado entre tigre e dragão modelado por conchas de 6000 anos atrás. Fonte: Cao (1998:10)

 

O homem primitivo carecia de conhecimentos científicos e procurava respostas para os fenômenos meteorológicos que o cercavam e que não conseguia explicar. Cao entende que a divinização de elementos da natureza foi a resposta encontrada: trovões faziam o homem imaginar que o céu era habitado por divindades associadas ao tigre devido a seu forte rugir, enquanto raios instigavam a imaginação no sentido do surgimento do dragão mítico, cuja imagem, é baseada no felino: pernas robustas, mas com focinho mais protuberante e rabo mais longo[7]. He possui outra opinião. Para este autor, o dragão é uma extensão da imagem do totem da cobra, associada à imagem do raio.[8]

O grau de honraria atribuído ao tigre e ao dragão foi se modificando ao longo do tempo. Na dinastia Shang (1.600 AEC – 1.100 AEC), a reverência dada ao tigre e ao dragão ainda era equilibrada em grau. Existem achados em escavações arqueológicas que mostram, em cada lado das tampas dos esquifes, gravuras do tigre e do dragão. As bandeiras também exibiam, em cada face, as respectivas figuras, bem como nos utensílios de uso diário, com a posição variada: um vaso poderia ter a tampa com a gravura do dragão e os pés gravados com a do tigre, por exemplo. Esses achados arqueológicos parecem dar indícios que tanto o tigre como o dragão possuíam o dom de conexão entre os espaços terrestre e celestial.[9]

Wang observa que a distinção honorífica entre o dragão e o tigre ocorreu com o maior domínio das técnicas agrícolas e da tecnologia primitiva. Apesar de o tigre suscitar temor, ele é, afinal, um animal que vive nas matas e montanhas e, com a evolução dos instrumentos de ataque e defesa, o felino poderia ser caçado. O dragão, por outro lado, permanecia envolto em uma atmosfera mágica e intangível: a cada relampear, parecia uma cobra que dançava entre as nuvens, liberando uma luz que ofusca os olhos, seguida de chuva que irrigava a terra, ou destruía em pouco instantes o vilarejo, as plantações e os barcos.[10]

O declínio do tigre

De acordo com a revisão da literatura, o dragão ascendeu a uma posição de maior honra quando o primeiro imperador Qin (259 AEC – 210 AEC) unificou a China em 221 AEC. Para consolidar o seu poder político, tomou o dragão como símbolo de sua supremacia sobre os demais seres. O uso desse símbolo se tornou exclusivo do imperador. A representação do dragão foi normatizada e vetada as variações, fato que se perpetuou até o fim do período monárquico (1911) na China. A partir de então, o tigre passou ocupar o segundo lugar de importância na hierarquia honorífica e a simbolizar o 臣chén [súdito], particularmente o militar na cultura chinesa.

Selo de comando militar. Fonte: 1986dingyu

Selo de comando militar. Fonte: 1986dingyu

Cao justifica essa dicotomia através de uma abordagem que relaciona o homem e a natureza. Como dito anteriormente, tendo em conta a limitação de conhecimentos científicos do período, a percepção do raio ou o relâmpago era o prenúncio de uma possível tempestade que poderia salvar ou destruir as plantações.[11] O antropólogo ainda observa que é comum para as sociedades agrícolas, que dependem de condições climáticas para a sua subsistência, reverenciarem entidades míticas relacionadas aos fenômenos meteorológicos. O céu era tido como inatingível e sagrado, lugar onde pretensamente habitava o dragão, enquanto o tigre encontrava-se nas montanhas e podia ser abatido pelo homem.[12] Segundo o antropólogo, a migração de reverência do totem tigre para o totem dragão dos povos da planície central chinesa foi ao natural, devido às condições meteorológicas propiciar o culto ao dragão. Contudo, visando à hegemonia sobre os povos ou etnias marginais de outras regiões, a intelligentsia monárquica teve de tratar de construir a legitimação do poder, através da relação de descendência entre o dragão mitológico e o imperador. Assim, foram reavivadas as lendas da ascensão aos céus do Imperador Amarelo, fundador mítico da etnia Han, montado num dragão[13], e da origem do Imperador Fu Xi, primeiro homem mítico, que teria sido gerado a partir da pisada de sua mãe numa pegada de um dragão[14]. Assim, o tigre passou a ocupar o segundo lugar na hierarquia de distinção social, ao transpor a natureza impetuosa do animal à área militar. Ainda, a outorga do comando militar era dada pelo imperador através de um artefato em forma de tigre, denominada de 虎符hǔfú. O general que vencia muitas batalhas recebia a referência de 虎将hǔjiàng, como uma homenagem a sua bravura e os seus descendentes eram reconhecidos como 将门虎子 [filhos de uma família de tigre]. A lista dos aprovados no sistema imperial de carreira pública era denominada de 龙虎榜 lónghǔbǎng [lista do dragão e do tigre / lista de aprovados do imperador].

Nas últimas décadas, surgiu a mística de que os chineses seriam descendentes do dragão. Conforme Wang[15], por um lado isto pode funcionar como uma palavra de ordem para a unificação dos chineses nas diásporas, mas, por outro, constitui uma meia-verdade, pois do ponto de vista histórico, a nomenclatura apenas se aplicaria aos descendentes diretos do imperador e contraria a característica multiétnicas da sociedade chinesa.

Em função da mística criada, surgiu na imprensa internacional, na década de noventa, o fenômeno do bloco econômico, composto por Hong Kong, Taiwan e Cingapura, entre outros países, que passaram a ser conhecidos como “tigres asiáticos” em oposição ao “dragão chinês”.

A presença do tigre na astronomia chinesa

Desde a dinastia Xia (2.100 AEC – 1.600 AEC), são realizadas observações celestes sistemáticas na China e, nas dinastias Shang e Zhou (1.600 AEC – 771 AEC), os astrônomos calcularam os períodos orbital e sinódico do sol, da lua e de cinco planetas, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, relacionados aos cinco elementos terrestres: Água (Mercúrio), Metal (Vênus), Fogo (Marte), Madeira (Júpiter) e Terra (Saturno)[16]. Combinaram-se os quatro primeiro planetas citados aos quatro pontos cardeais, identificando-os a quatro animais e cores. Wang Chong (27 – 97), filósofo da dinastia Han Oriental, explica que: “O Leste é Madeira, cuja constelação é do Dragão Azul. O Oeste é Metal, cuja constelação é do Tigre Branco. O Sul é Fogo, cuja constelação é do Pássaro Vermelho. O Norte é Água, cuja constelação é da Tartaruga Negra.”[17]

A figura 6, abaixo, representa o antigo mapa astronômico chinês, onde pode ser observada, à direita, a constelação do Tigre Branco:

Antigo mapa astronômico chinês.

Antigo mapa astronômico chinês.

O filósofo Liu An (179 AEC – 122 AEC), considerado o maior conhecedor da astronomia chinesa do período anterior à dinastia Qin (221 AEC – 206 AEC), afirma que a ligação dos cinco elementos aos pontos cardeais mais o centro e às estações não é feita por acaso. Cada um dos cinco elementos está relacionado a uma direção e uma estação do ano e eles são os representantes da categoria de entidades que possuem tais características. A constelação do Imperador Amarelo representa o centro, cujo elemento é a Terra, remetendo às terras férteis da planície central chinesa. As características de regeneração e acolhimento são categorizadas a esse domínio que, por extensão de sentido, são relacionadas ao Senhor de todas as coisas, ou seja, ao imperador. Como o sol nasce ao leste, as características de crescimento são categorizadas no elemento Madeira, representante do reino vegetal, cuja estação é a primavera; o elemento Fogo está relacionado ao sul, devido ao calor excessivo dessa região geográfica no verão na China; o sol se põe ao oeste e, nesse momento o céu se torna dourado – daí a associação ao Metal, elemento que possui a capacidade de purificação e de eliminação, associado ao outono. O elemento Água está relacionado ao norte e ao frio, cuja característica é hidratar e levar à penetração.[18]

Na dinastia Han (206 AEC – 24 EC), identificaram-se estrelas formando um conjunto de vinte e oito mansões, i.e., constelações. A partir da elíptica, utilizaram-nas para dividir o espaço celeste em doze partes que serviam de referência para as observações astronômicas. Estas receberam a denominação de doze animais que são conhecidos como o zodíaco (rato, búfalo, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco), que se relacionam às doze horas[19] e aos doze meses. O período entre as três e cinco da manhã é denominado de 寅 yín, governado pelo tigre e pertence ao elemento Madeira. Por fim, março é o mês do tigre[20].

Cao[21] e Wang[22] observam que, do ponto de vista da astronomia chinesa, a presença do tigre como símbolo de um dos pontos cardeais, demarcado em uma constelação celeste (sendo o terceiro signo do zodíaco na astrologia e constante no sistema de contagem de tempo), é mais uma evidência de importância de status do tigre no modelo cultural chinês, tanto quanto a do dragão.

A presença do tigre na literatura

No verbete referente ao primeiro trigrama 乾 qián [céu] no 易经 Yi Jing [O livro das mutações] (900? AEC) consta que:

a pessoa se torna uma unanimidade, tal como as mesmas frequências de som se tornam uníssonas, as entidades com as mesmas características se atraem: a água escorre em direção às regiões inferiores úmidas, o fogo é atraído pela aridez; da emergência do dragão das águas ao céu, surgem as nuvens; do rugir do tigre, nasce o vento. Assim, quando surge o sábio de grande qualidade moral, ele é reconhecido por todos.[23]

Esta passagem é a referência escrita mais antiga relacionada ao tigre e ao dragão. Liu[24] interpreta-a como sendo o dragão uma criatura das águas, quando a criatura voa aos céus atrai as nuvens, que pertencem ao mesmo elemento. Por outro lado, a força do rugir do tigre estremece os vales e assim surge o vento. Em outra passagem do Livro das mutações diz-se explicitamente que o dragão pertence ao 乾qián [céu], vive entre as nuvens, por isso é 阳yáng [princípio ativo ou positivo]. O tigre produz vento e vive na terra 坤 kūn, por isso é 阴yīn [princípio passivo ou negativo]. Na filosofia taoísta, da combinação das energias positiva e negativa surgiram todas as coisas, Cao[25] e Wang[26] afirmam que, a partir do corolário taoísta, o dragão e tigre são inseparáveis na cultura chinesa, o que é observável através de inúmeros provérbios ou colocações em que se encontram estes dois termos, para expressar o conceito de vivacidade – por exemplo, 生龙活虎shēnglóng-huóhǔ [dragão vivaz e tigre vigoroso], 龙腾虎跃lóngténg-hǔyuè [ascensão do dragão e salto do tigre], 虎啸龙吟 hǔxiào-lóngyín [rugir do tigre e cantar do dragão] – ou para caracterizar pessoas de talento – por exemplo, 龙骧虎步 lóngxiāng-hǔbù [trote do dragão e passo do tigre], 龙骧虎视 lóngxiāng-hǔshì [trote do dragão e olhar do tigre], 藏龙卧虎cánglóng-wòhǔ [dragão escondido e tigre agachado]. Expressões com o termo tigre denotam características de [imponência e bravura] 雄姿虎威 xióngzī-hǔwēi, por exemplo. O dito [colocar asas no tigre] 为虎添翼 wèihǔtiānyì denota somar forças a algo ou a alguém em uma situação já favorável.

Porém, nem toda a expressão que contém o termo tigre possui uma conotação positiva. Cao observa que em Lǐ Jì [O livro dos ritos], um dos cânones da literatura confuciana, é o primeiro e mais antigo escrito que registra a relação do tigre com a tirania[27]. Consta que, durante a passagem de Confúcio e seu discípulo pelo Monte Tai, encontram uma mulher aos prantos ao pé de um túmulo. Ao perguntarem sobre o ocorrido, ela contou que a sua família sempre subsistiu da caça do tigre e que seu sogro e os seus ancestrais tinham todos morrido durante o exercício dessa atividade. Entretanto, seu marido e filho haviam sido acusados injustamente e condenados à morte por não terem aceito o esquema de corrupção proposto por funcionários públicos. Confúcio, ao ouvi-la, comentou que “a tirania é mais feroz do que o tigre”[28] (苛政猛于虎也kēzhèng měng yú hǔ yě). Mais tarde, as fábulas com tigres eram subentendidas a partir deste axioma, como 猱吃虎脑 náochīhǔnǎo [O macaco dourado que comia cérebro de tigre] e 虎逐麋鹿 hǔzhú-mílù [A corça e o tigre]. São contos que narram que, apesar da “ferocidade do tigre”, a habilidade e a inteligência podem vencer a força.[29] Nos dias atuais, a máxima confuciana é produtiva, ainda, para denotar outras situações, como [a inflação é mais feroz do que o tigre] 通胀猛于虎 tōngzhàng měng yú hǔ. Sobre a função das fábulas, abordaremos mais adiante.

De acordo com nossa pesquisa no corpus do Centro da Linguística Chinesa da Universidade de Pequim[30], encontramos quase duzentas colocações com o termo tigre. Segundo nossa análise, a conotação pode ser pejorativa ou não, dependendo do contexto. Quando a expressão combina o termo tigre com os termos lobo, cobra e chacal ou com partes do corpo do felino, remete ao sentido de crueldade, ferocidade e perigo, como 虎口拔牙hǔkǒu-báyá [arrancar dente da boca do tigre], entre outros.

O Shānhǎijīng [O livro da natureza] reúne registros de geografia, hábitos, costumes, lendas e mitos, datados antes do período dos Reinos Combatentes (475-221 AEC). A obra é constituída por relatos orais registrados a partir de expedições por toda a China. Os antropólogos He[31], Cao[32], Wang[33] reconhecem a obra como uma importante fonte para os estudos antropológicos, por fornecer indícios da cultura de veneração ao tigre no Oeste chinês, região no entorno da cordilheira montanhosa Kunlun[34], estendendo-se entre as atuais províncias de Xinjiang a Sichuan.

No volume intitulado Xī shān jīng [Livro das montanhas do oeste], conta-se que no cume da montanha Kunlun reside 西王母 Xī Wángmǔ [Rainha Mãe do Oeste], a figura feminina mais importante no panteão chinês. Ela possui aspecto humano, porém tem rabo e dentes de tigre e tem por hábito rugir. A deusa governa as epidemias, catástrofes, massacres e é conhecida como a deusa da morte e do nascimento. Os registros constam que no seu jardim há uma árvore da eternidade da qual são extraídas essências para produzir as pílulas da imortalidade. No declive da montanha encontram-se dois guardiões, 陆吾 Lùwú, corpo de tigre com nove rostos humanos, responsável pelas fronteiras dos nove reinos celestiais e pelo jardim da Rainha Mãe do Oeste; 马腹 Mǎfù, corpo de tigre e rosto humano, possui um rugir como o choro de um recém nascido. Costuma banhar-se nas águas, deixando as garras na superfície para atrair a atenção e devora a pessoa que se aproxima. A entrada da montanha na face do sol nascente é guardada pelo 开明兽 Kāimíngshòu, que também possui nove rostos humanos, e é conhecido pela sua ferocidade[35]. Na mitologia consta que apenas o arqueiro celestial 后羿Hòuyì, conseguiu despistá-lo para encontrar a Rainha Mãe do Oeste e obter as pílulas da eternidade.[36] No volume ainda constam várias referências às divindades meio homem, meio tigre, que do ponto de vista antropológico, constituem indícios de tribos que reverenciavam o tigre como totem no Noroeste, Oeste e Sudoeste chinês.[37]

Zhànguó Cè [Estratégias dos Reinos Combatentes] e Hán Fēizǐ [O Príncipe Han Fei] registram a disputa pela hegemonia chinesa entre 475 – 221 AEC, época de predomínio das fábulas. Estas eram utilizadas como recurso retórico para o fortalecimento da argumentação por filósofos, príncipes e estrategistas dentre as mais variadas escolas de doutrinas filosóficas, a fim de expor, satirizar ou persuadir alguém em relação a alguma verdade de maneira implícita para preservar a face dos envolvidos. Devido ao uso recorrente, se tornou um gênero autônomo e muito popular. Muitos de seus títulos se tornaram provérbios e expressões idiomáticas empregados em larga escala no cotidiano chinês.[38] Em 老虎求生 Lǎohǔ-qiúshēng [Uma questão de vida ou de morte] é narrada a fábula de um tigre que, ao ser preso numa armadilha, prefere partir a sua pata e fugir do que perder a vida. Em 狐假虎威 hújiǎhǔwēi [A raposa e o tigre] a fábula remete a um tigre que, por desconhecer seu poder e força, é enganado pela raposa. Em 两虎相斗 liǎnghǔ-xiāngdǒu [Tigre versus tigre], narra-se como tirar melhor proveito da briga entre duas feras, sem desperdiçar muito esforço. Por fim, 三人成虎 sānrén-chénghǔ [Como um boato se torna realidade] é uma parábola que fala sobre o risco de não conter um boato, tornando-o uma verdade.

Na Arte da Guerra[39], Sunzi, ao explicar o axioma de não atacar um inimigo forte de frente, utiliza-se de uma metáfora para se fazer melhor entender. Diz que é necessário [fazer o tigre descer da montanha] 调虎离山diàohǔlíshān, por que na planície, longe de seu habitat natural, ele se torna a tal ponto frágil que pode ser atacado até pelo cachorro 虎落平阳被犬欺hǔluò-píngyáng bèi quǎn qī [tigre na clareira é atacado até pelo cão / De árvore caída, todos fazem lenha]. Da mesma forma, se quiser saber onde está localizado o quartel-general do inimigo, [solte o tigre de volta para a montanha] 放虎归山 fànghǔ-guīshān, mas também poderá se tornar uma futura ameaça.

Taiping Guangji [Registros de Taiping] foi organizado por Li Fang et al. no terceiro ano do reinado Taiping (978). A obra reúne toda a literatura de cunho sobrenatural e maravilhosa produzida até a dinastia Song (960 – 1279). A obra de 500 volumes é organizada por 92 temas, tais como deuses, assombrações, espíritos, animais e criaturas, contos budistas e taoístas, entre outros. Dentre estes, seis volumes e mais de sessenta contos têm como o tema o tigre. Um grande número de narrativas refere-se à metamorfose de homens em tigre, como castigo por sua arrogância ou violência, sendo então condenados a devorar outros homens. Entretanto, mesmo transformados em feras, não acometem atrocidades contra seus pais ou seus filhos. Daí surge o provérbio 虎毒不食其子 hǔ dú bù shí qí zǐ [O tigre é sinistro, mas não come a sua cria], revelando uma dimensão de limite de crueldade personificada no animal.

É muito provável que 水浒传 Shuǐhǔ Zhuàn [Na Ribanceira somos todos irmãos], um dos quatro cânones da literatura clássica chinesa, seja o romance com o maior número de referências ao tigre. Há três passagens muito conhecidas. Um episódio iguala a valentia do homem à do tigre: Wu Song, no caminho de casa, bebe dezoito cumbucas de aguardente e, ao saber que o vilarejo estava sob a ameaça de um tigre, resolve eliminá-lo. Ao encontrar a fera no meio do caminho, a mata a socos. A personagem Sun Er-niang é referida como 母老虎mǔlǎohǔ [tigresa], termo que possui um sentido pejorativo nesta cultura, referindo-se às mulheres muito bravas, mal-humoradas e que dominam a relação matrimonial. Finalmente, o terceiro episódico refere-se a quando Wu Da hesita em capturar um traidor e outra personagem exclama: “Está levando medo de um tigre de papel?”. A expressão popular é utilizada para se referir a uma falsa ameaça e se tornou famosa em 1946, quando Mao Zedong foi entrevistado quanto ao seu temor diante das tropas nacionalistas e respondeu que eles não se constituíam em ameaça, por serem “tigres de papel”.

Pu Songling (1640-1715), famoso escritor da literatura fantástica e autor de 聊斋志异 Liáozhāi zhì yì [Contos extraordinários de Liaozhai], narra, em “O tigre arrependido de Zhaocheng” [40], a estranha estória de um tigre que, ao devorar o único filho de uma velha, aceita a pena de tomar conta da senhora até a sua morte. Segundo a nossa interpretação sob um viés sócio-político, este conto soma à personificação da tirania governamental e ao respectivo “senso de limite de ferocidade” do tigre, narrado em contos de períodos anteriores citados acima, o “senso de responsabilidade” pelos atos praticados pelo felino.

Ji Yun (1724-1805), autor de 阅微草堂笔记 Yuèwei cǎotáng bǐjì [Anotações no estúdio de Yuewei], era mandarim e exerceu função pública na província de Xingjiang, Oeste chinês, onde colheu várias estórias relacionadas ao tigre. Em “Tang, o caçador”, por exemplo, narra a estória de como a habilidade adquirida pela prática e a experiência pode vencer o maior felino terrestre.

Este ensaio descreveu a representação simbólica do tigre na cultura chinesa através de um recorte antropológico e literário para demonstrar a importância do felino no modelo cultural chinês. A revisão bibliográfica indica que a civilização chinesa surge a partir da interação de tribos que reverenciavam principalmente o dragão e o tigre, além de outros entes naturais. O animismo é motivado pelo conhecimento incipiente do homem primitivo em relação aos fenômenos meteorológicos e naturais que o circundavam. De acordo com os achados arqueológicos, em tempos remotos era conferida a mesma distinção honorífica, ou havia uma ligeira superioridade do tigre em relação ao dragão. Entretanto, com o avanço do domínio tecnológico, o tigre se tornou menos ameaçador do que o dragão. Esta criatura mitológica era considerada o senhor dos raios e da chuva – condição climática fundamental da sociedade agrícola que se estabelecia. Assim, quando o primeiro imperador chinês unificou a China como uma nação, o dragão foi tomado como o símbolo de exclusividade imperial até o fim da monarquia. Neste contexto e seguindo a tradição, o tigre se torna o símbolo favorito do povo, sinal auspicioso contra o mal. Peças de vestuário, acessórios e artefatos são produzidos como amuletos. O tigre ao se tornar o segundo símbolo em importância na escala de distinção social, passa a representar o poder militar ou a esperança a sua ascensão, inferior somente à importância do dragão. Por outro lado, o termo tigre, por extensão de sentido, pode ser empregado para desvelar a opressão, ou coisas e eventos perigosos, bem como para descrever ações e pessoas de bravura. Por fim, na língua e literatura chinesas, constatam-se muitos provérbios e colocações contendo os termos tigre e dragão, o que, de um prisma antropológico, reforça a relação de complementaridade e importância simbólica destas entidades neste modelo cultural.

 

On tigers at Chinese year of dragon

Márcia Schmaltz

University of Macau

Abstract: This paper describes the symbolic representation of the tiger in the Chinese culture through anthropological and literary approaches to demonstrate the importance of the feline with a status similar to the dragon, in this cultural model.

Keywords: Cultural studies, tiger, Chinese culture.

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[1] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal] e WANG Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[2] HOLLAND & QUINN. Cultural Models in Language and Thought, p. 4.

[3] Os ideogramas são escritos em chinês simplificado e as transliterações fonéticas do chinês para o português estão em pinyin, grafia adotada oficialmente pela República Popular da China desde 1964 e 1979, respectivamente. Todas as traduções são de responsabilidade da autora. As acepções ou traduções livres do chinês para o português estão sinalizadas entre parênteses angulares.

[4] CHEN. Zhōngguó mínjiān gùshì quánjí [Contos populares chineses completos].

[5] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal] e WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China], p.8.

[6] Região do curso médio e inferior do rio Amarelo, que compreende a província de Henan, o centro da província de Shaanxi, o sul das províncias de Hebei e Shanxi, o oeste da província de Shandong e o sudoeste da província de Jiangsu, é tida como o local do surgimento da etnia Han.

[7] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p.8.

[8] HE. Túténg wénhuà yǔ rénlèi zhū wénhuà de qǐyuán [Cultura do totem e a origem da cultura humana], p. 63.

[9] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 219.

[10] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China], p. 115.

[11] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 223.

[12] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 227.

[13] Shānhǎijīng [O livro da natureza], p. 54.

[14] Shānhǎijīng [O livro da natureza], p.513-514.

[15] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China], p. 23.

[16] SIMA. Shǐ jì [Registros históricos], p. 111.

[17] WANG. Lùn héng [Sobre a balança], p. 46.

[18] LIU. Huáinánzǐ [O livro do príncipe de Huainan], p. 124.

[19] O sistema chinês para a contagem do dia equivalia a um período de duas horas ocidentais até a dinastia Song (960-1279).

[20] WANG. Lùn héng [Sobre a balança], p. 47.

[21] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal]

[22] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[24] LIU. Huáinán [O livro do príncipe de Huainan], p. 121.

[25] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal]

[26] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[27] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 6.

[29] CAPPARELLI & SCHMALTZ. 50 fábulas da China fabulosa.

[31] HE. Túténg wénhuà yǔ rénlèi zhū wénhuà de qǐyuán [Cultura do totem e a origem da cultura humana].

[32] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal].

[33] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[34] Na cosmogonia chinesa, é onde surgiram todas as coisas e o cume é a morada dos deuses e imortais, onde se localiza o mítico Palácio de Jade de Huangdi, o Imperador Amarelo.

[35] Shānhǎijīng [O livro da natureza].

[36] SCHMALTZ & SCHMALTZ. Histórias da Mitologia Chinesa.

[37] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 112.

[38] SCHMALTZ. Metáfora conceptual de tempo em fábula chinesa,

p. 35.

[40] SCHMALTZ & CAPPARELLI Contos sobrenaturais chineses.

Sobre Marcia Schmaltz 修安琪

Tradutora e intérprete de chinês-português, é professora do Mestrado em Estudos da Tradução da Faculdade de Letras da Universidade de Macau. Possui mestrado e doutorado em Linguística. 汉葡翻译兼澳门大学人文学院葡汉翻译硕士学位任教。 Além de traduções comerciais, científicas e jurídicas, também incursionou no universo da tradução literária: com Janete Schmaltz (1999, 2000) Histórias da mitologia chinesa. Xerox e Da Casa. Yu, Hua (2007) Viver 《活着》. São Paulo: Companhia das Letras. com Sérgio Capparelli (2007) 50 Fábulas da China Fabulosa e (2010) Contos Sobrenaturais Chineses, ambos pela L&PM de Porto Alegre. Lu, Xun (no prelo) Contos completos de Lu Xun. 《鲁迅小说全集》. Porto Alegre: L&&PM. O garoto do riquixá 《骆驼祥子》. São Paulo: Estação Editorial (2017).
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