Lendas, mitos e histórias sobre a serpente

O Ano Lunar de 2013 inicia no dia 10 de fevereiro e corresponde à serpente, sexto animal na ordem do zodíaco Chinês. Popularmente, os nativos desse signo (2001, 1989, 1977, 1965, 1953, 1941,…) são também chamados carinhosamente de “dragõezinhos” [小龙 xiǎo lóng]. Uma lenda narra que a serpente teria utilizado o ardil de parente mais próximo do dragão para ser classificada no sistema zodiacal[1]. A astrologia Chinesa caracteriza as pessoas do signo como inteligentes e racionais — dotadas de autocontrolo e vaidosas. O signo da serpente é representado pelo ramo terrestre 巳 [“serpente”] e governa o período entre as nove e onze horas da manhã e o quarto mês do ano luar.

A serpente na mitologia chinesa

Desde os tempos mais remotos, a serpente está presente de forma marcante em mitos, lendas e fábulas Chinesas. Provavelmente, por fazer parte do ecossistema da Ásia, os materiais arqueológicos encontrados indicam a cobra como um dos principais totens das tribos primitivas. Em Shan’haijing, O Livro da Natureza, há vários registos de seres fantásticos, espécies mistas de serpente, dragão e humano. A tribo Xuanyuan [轩辕] do Imperador Amarelo [黄帝 Huángdì], o mítico ancestral Chinês, possuía o totem de uma serpente com cabeça humana. Ainda hoje, a cobra é reverenciada por etnias minoritárias no Sul e Sudeste da China, que realizam procissões em sua homenagem, no décimo quinto dia do primeiro mês lunar.

As gravuras da dinastia Han (206 a.C.-220) retratam as figuras mitológicas de Fu Xi e de Nüwa com suas caudas entrelaçadas. O corpo de Fu Xi era coberto de escamas, enquanto Nüwa tinha cabeça de mulher e corpo de serpente. Nüwa é a deusa criadora dos homens. Diz o mito que a deusa do céu, Hua Xu, deu à luz gémeos. O bebê de sexo masculino foi chamado de Fu Xi, e o de sexo feminino, Nüwa. A deusa tinha um imenso poder, pois era capaz de mudar de forma mais de setenta vezes por dia.

Pouco tempo depois de ocorrer a separação entre o céu e a Terra, não existiam ainda seres humanos. Nüwa pegou então um punhado de lama e moldou várias crianças, à sua imagem e semelhança. Algum tempo depois, ela se cansou. Pegou então uma corda e a emplastou de lama. Balançou-a, em seguida, no céu. Os pingos de lama que caíram sobre a terra transformaram-se também em seres humanos.

A partir desse momento, passaram a existir na terra diferentes classes sociais: os ricos, moldados pela própria Nüwa, e os pobres, feitos com os pingos de lama.

No noroeste da China, existe uma montanha chamada Imperfeita, que ganhou este nome devido à fúria de Gonggong, o deus das águas, ao ser derrotado na guerra pelo Imperador Amarelo. Impetuosamente, ele jogou-se contra a montanha, um dos pilares de sustentação do céu. A montanha desmoronou e arrebentou a corda que segurava a Terra. Logo, o céu se inclinou na direção noroeste, e a Terra afundou na direção sudeste, fazendo com que o sol e a lua nascessem no leste e se pusessem no oeste. Igualmente, os cursos dos rios foram desviados para o mar oriental, provocando uma grande inundação. Da grande fenda do céu, jorrou também água sem parar, provocando muitas mortes. Nüwa, vendo os seus filhos em tamanho apuro, sentiu um aperto no coração e decidiu salvá-los.

Ela colheu pedras multicoloridas do fundo dos rios, acendeu o fogo e fundiu as pedras até que se tornassem uma substância grudenta, como cola, e a utilizou para remendar a fenda do céu. Como temesse que o céu despencasse outra vez, cortou as quatro patas de uma tartaruga marinha gigante para que servissem de pilares nos quatro cantos da Terra. Assim, o céu seria como um tecido cobrindo a Terra. O resultado de tudo isso foi que os seres humanos nunca mais precisaram ficar preocupados, com medo de que o céu tombasse sobre suas cabeças.

Porém, o fato de o céu ter despencado provocou outras catástrofes. Na região de Ji, um dragão negro revolveu-se no rio, a fim de provocar inundações. Nüwa matou-o, aproveitando para dispersar as feras que ali existiam para bem longe dos humanos.

Ela tinha ainda muita coisa pela frente, pois as inundações haviam trazido muitas doenças. Nüwa queimou os juncos, reduzindo-os a cinza, e formou barragens para conter as águas. Apareceram, assim, os continentes, e neles os seres humanos construíram suas casas.

Depois de todo esse trabalho, a paz voltou e a Terra prosperou, mas Nüwa, muito cansada, foi se deitar. Seu corpo desintegrou-se, transformando-se em muitos fragmentos, entre eles, dez deuses que guardam a inteligência e a genialidade.

Nüwa é a deusa da fertilidade e representa a sociedade matriarcal na cultura Chinesa. Na Rua das Estalagens em Macau existe um templo dedicado a ela. No vigésimo dia do primeiro mês lunar é comemorado o aniversário de Nüwa [女娲Nôiwó, em cantonense]. Os pequenos caracteres no lado direito da parte de fora da porta, indica que o templo fora inaugurado em 1888, décimo quarto ano do reinado do imperador Guagxu, da dinastia Qing. Uma das peculiaridades do templo é a estátua da deusa esculpida em uma pedra vinda do espaço, comprada na Austrália e doada por fiéis de Hong Kong. A estátua representa a deusa a reparar o céu.

 

A serpente e a agricultura

Um dito popular Chinês diz que quando a andorinha voa baixo e a serpente sai da toca, é sinal da chuva que se aproxima. Dessa forma, a serpente foi divinizada devido ao seu pressuposto poder de presságio de inundação. Com a introdução do Budismo na China, o dragão aparece em muitos sutras, livros sagrados budistas, que conferem ao ser mitológico a qualidade reguladora das águas e das nuvens. Dizem os folcloristas Chineses que a serpente, como uma divindade de proteção ao clima, foi preterida gradativamente ao dragão. No entanto, observa-se que o corpo alongado e coberto de escamas do dragão Chinês, lembra-nos uma serpente, sugerindo a ocorrência de sincretismo dos dois seres (Wang 1998: 42-46). O réptil passou a ser objeto de culto devido à serpente Naja gigante (conhecida por Naga) ter se postado atrás e acima da cabeça de Buda, para que os pingos da chuva não atrapalhassem sua meditação.

A serpente na Medicina Tradicional Chinesa e na culinária

Periodicamente, todas as serpentes mudam sua camada exterior para sair uma pele mais flexível, mais nova, assim permitindo que elas cresçam. Este processo é chamado de ecdise e, depois de ocorre-la, surgem escamas maiores e de cores mais vivas. Os Chineses da Antiguidade ao observarem a serpente se contorcendo para verter a pele — sem medo da dor, associaram o fenómeno biológico ao renascimento. Inclusive, especularam sobre sua imortalidade, uma lenda popular do condado Deqing em Cantão, conta o porquê da capacidade de rejuvenescimento da serpente.

Muito tempo atrás, os homens apenas precisavam plantar o arroz e, quando os grãos maturavam, não precisavam colhê-los, pois os talos repletos de arroz dirigiam-se sozinhos para a porta de seu proprietário. Naquela altura, homens e serpentes eram bons amigos e as suas únicas preocupações eram com o envelhecimento e a morte.

Um dia, uma anciã e uma serpente conversavam às portas fechadas, se havia maneiras de se evitar o fim. A serpente teve uma ideia e sugeriu de se livrarem da pele para que nascesse uma camada externa nova e surtisse o efeito de rejuvenescimento. A velha senhora achou uma boa ideia, e as duas começaram a tentar a arrancar a pele do corpo.

A cobra escolheu um piso irregular e áspero para se contorcer e esfregar seu corpo àquele chão. Apesar da dor, a serpente persistiu, até a pele verter-se por inteira.

A velha senhora resolveu deitar-se sobre a cama, torcia-se sobre a esteira e a dor que sentia parecia-lhe insuportável. Apenas tinha saído a pele de sua fronte, quando o arroz maduro veio bater à sua porta. Como ela não atendia, ele insistiu por várias vezes, a velha senhora gritou de dentro do quarto, impaciente:

— Daqui por diante não venha mais aqui, espere-me na lavoura para lhe colher.

Obediente, o arroz voltou para os alagadiços e, a partir de então, nunca mais saiu de lá.

Depois, a anciã disse à serpente:

— Como é dorido mudar a pele, eu prefiro morrer a passar por esse sofrimento.

Desse momento em diante, o ser humano quando velho parte para o céu; enquanto a serpente troca a pele, a cada dois ou três meses, e rejuvenesce.

À serpente também está relacionada à grande capacidade reprodutiva no imaginário Chinês. No interior da Mongólia Interior, diz que um rapaz ao encontrar um casal de serpentes em cópula, deve tapar suas cabeças com um lenço, que ficará com poderes mágicos para enfeitiçar a sua pretendente. Na Planície Central Chinesa[2], os antigos também conferiam importância à reprodução humana para o aumento da força produtiva às lidas da lavoura e acreditavam que, ao comer o ofídio, poderia aumentar e melhorar o ato de procriação. Esse hábito alimentar remonta ao período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C) e permanece até os dias de hoje. Ao andar pelo interior da China, encontram-se aguardentes com a infusão de serpente e sua carne é considerada como uma especiaria, muito apreciada em pratos tradicionais.

Liu Zongyuan (773-819), poeta confucionista e expoente na literatura Chinesa da dinastia Tang (618-907), legou para a posteridade um dos mais belos registos e crítica à injustiça social do sistema vigente na altura: “O caçador de serpente” [捕蛇 bŭ shé]

Conta-se que no interior de Yongzhou, província de Henan, existia uma espécie de serpente listrada em preto e branco. E dizia-se que a víbora provocava a morte de qualquer ser vivo que o tocasse. Seu veneno era mortal e não existia qualquer antídoto. Entretanto, a peçonhenta morta servia como princípio ativo para fórmulas medicinais para o tratamento de hanseníase e úlceras, entre outras doenças. De sua pele podia se extrair essências para a eliminação de parasitas do corpo. Sendo a atividade de captura desse tipo de serpente muito perigosa, o médico real obteve autorização do imperador para isentar o pagamento de impostos de quem as pegasse e as entregasse, duas vezes ao ano, ao palácio imperial.

Nessa localidade, existia uma tradicional família caçadora dessa espécie de cobra de apelido Jiang. A família já gozava há três gerações do benefício de isenção de impostos. Ao ser perguntado sobre seu sentimento em relação ao ofício, Jiang relatou que tanto seu avô quanto seu pai tinham falecido, durante a atividade do ofício. Ele já exercia essa profissão há doze anos e, por pouco, não tinha caído também em desgraça.

Sentindo muita comiseração pela tragédia de Jiang, Liu Zongyuan sugeriu-lhe mudar de ofício. Jiang ao ouvir a oferta, agradeceu-lhe dizendo:

— Você sugere isso, por pena de mim? Pois, lhe digo que prefiro continuar a exercer essa profissão desgraçada do que voltar a pagar impostos! Caso eu não fizesse isso, eu já teria morrido de tanto trabalhar. Eu e minha família moramos aqui há sessenta anos; entretanto, meus vizinhos estão cada vez mais pobres devido ao fardo de impostos e, por mais que trabalhem, nunca é o suficiente para quitá-los. Meus vizinhos que não morreram de fome, fugiram para escapar da coleta de impostos; enquanto eu, devido à caça da serpente, sobrevivi e vou levando a vida. Pelo menos corro risco de vida apenas duas vezes ao ano.

No Compêndio de Ervas Medicinais, do século XV, ainda regista uma série de indicações quanto ao poder de cura da serpente, que não descreveremos aqui, devido à limitação de espaço.

A presença da serpente na escrita

A presença marcante da serpente pode ser observada no sistema de escrita Chinesa. Nos primórdios, o réptil era designado por “ele” [它], terceira pessoa impessoal, explica o Dicionário Analítico de Caracteres Chineses e complementa que, na Antiguidade, os moradores das montanhas costumavam cumprimentar-se com um “Encontrou ela [serpente]?” [无它乎? wú tā hū]. Essa saudação assemelha-se ao “já comeu?” [吃饭了没有? chīfàn le méiyǒu?] ou ao “como vai?” [你好吗? nǐ hǎo ma?], na China contemporânea. O ideograma de serpente, nos dias de hoje, é 蛇 [shé], composta pelo radical “inseto e serpentes” [虫 chóng] e “ele” [它 ].

 

A presença da serpente nas fábulas

Na pesquisa bibliográfica, percebem-se diferentes sentidos impingidos à serpente na civilização do País do Meio. Registamos uma que se relaciona à desconfiança.

Uma fábula bastante conhecida é “Confundindo arco com cobra” [杯弓蛇影 bēigōng-shéyǐng], que virou um provérbio para descrever uma pessoa com excesso de preocupação e sem fundamento.

Chen era o chefe de um distrito no interior da província de Henan. No solstício de verão, ele convidou o seu secretário Du Xuan para beber.

Um arco vermelho estava pendurado na parede e a sombra refletida no copo parecia uma cobra. Du Xuan ficou muito assustado e, com medo de ofender seu chefe, nada disse, limitando-se a beber.

No dia seguinte, Du Xuan caiu doente, com fortes dores no peito. Nada conseguiu comer e passou a noite em claro. Em apenas alguns dias, emagreceu muito. Sua família, vendo o seu estado, chamou os melhores médicos do distrito, mas nenhum deles conseguiu curá-lo.

Chen ficou sabendo do estado de saúde de Du Xuan, foi a sua casa e perguntou o que de fato tinha acontecido. Du Xuan respondeu:

— Quando estive na sua casa, vi dentro do copo uma cobra. Eu fiquei com muito medo, mas mesmo assim, bebi tudo.

O chefe de Du Xuan, entendendo a causa de sua doença, ficou pensativo.

— Como é que haveria uma cobra no copo que eu dei a ele? Se houvesse, eu também teria visto!

Chen foi para casa. Por mais que pensasse, não conseguia decifrar o enigma. Ele sentou no lugar onde estivera Du Xuan e mandou trazer um copo de vinho. Naquele momento, ele ergueu a cabeça e viu o arco pendurado na parede, refletindo uma sombra, na forma de uma cobra. Imediatamente ele compreendeu o que tinha acontecido.

Chen mandou chamar Du Xuan e pediu que ele ocupasse o mesmo lugar da outra vez. Quando o vinho foi servido, ele apontou para o copo de Du Xuan e disse:

— A cobra que você viu da outra vez é a mesma que aparece agora no seu copo, não é mesmo? Preste bastante atenção e vai perceber que é a sombra do meu arco, pendurado na parede!

Du Xuan recuperou a saúde.

A presença da serpente nos provérbios

Há ditos que comparam a serpente à insaciabilidade. Qu Yuan (340-278 a.C), o patriota do reino de Chu, relaciona a serpente à ambição expansionista do reino de Qin: “Qual o tamanho de uma serpente que engole um elefante?” [一蛇吞象,厥大何如? yi shé tūn xiàng, jué dà hérú]. No Livro dos Reinos [《国语》Guóyŭ], a ameaça e o perigo estão relacionados à serpente como uma referência implícita ao soberano do reino de Zhao capturado pelo reino de Wu. Seu ministro adverte o rei que “há de se eliminar a víbora enquanto é pequena” [为虺弗摧,为蛇若何wèi huǐ fú cuī, wèi shé ruòhé], em português, há um provérbio semelhante que diz: “quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre”. No livro do reino de Qi em Estratégias dos Reinos Combatentes [《战国策》Zhàn Guó Cè], um provérbio diz: “se a serpente não possui pés, por que adicionar?” [蛇固无足,子安能为知足 shé gù wú zú, zǐ ān néng wèi zhī zú], ou seja, não invente coisas onde não existem, conhecido no Chinês moderno como “desenhar pernas em serpente” [画蛇添足 huàshé-tiānzú].

Um dos Trinta e seis estratagemas [三十六计 sānshíliù jì] é “remexer a mata para atiçar a serpente” [打草惊蛇 dǎcǎo-jīngshé], em português temos provérbios semelhantes como “não levantes a lebre que outrem leve” ou “quem pássaro há de tomar, não o há de enxotar”. O provérbio adverte para não despertar a atenção do adversário para pegá-lo desprevenido. No entanto, também existe a interpretação de provocar o inimigo para que saia do abrigo e atacá-lo de tocaia.

Descrever algo como “cabeça de tigre, cauda de serpente” [虎头蛇尾 hŭtóu-shéwěi] refere-se a começar com grande entusiasmo e terminar com frouxidão, equivalente ao dito português “entradas de leão e saídas de cão”. O folclorista Wang aponta outro significado, de acordo com os registos históricos, que serve para descrever uma pessoa que na frente elogia e fala mal pelas costas (1998: 210).

A presença da serpente na literatura

O leitor ao ler até aqui, pode ter ficado com uma impressão de nocividade da serpente, mas não é bem assim. O drama épico A lenda da cobra branca [《白蛇传》Bái shé zhuàn], é uma das óperas mais românticas Chinesas. A serpente alva dá provas de amor incondicional e capaz de tudo para salvar seu amado, tendo ao seu lado a leal serpente verde.

A peça inspirada no folclore popular conta que um jovem chamado Xu Xian possuía uma pequena cobra branca de estimação até que seus pais o forçaram a livrar-se dela. Anos se passam e durante uma violenta tempestade, a serpente, que na verdade tratava-se de um espírito com poderes mágicos, se transforma na bela Bai Suzhen. Bai Suzhen parte ao encontro de Xu Xian, por quem havia se apaixonado, acompanhada de sua criada Xiao Qing, também um espírito de serpente evoluído. O encontro dos dois ocorre ao se protegerem da chuva, na Ponte Quebrada do Lago Oeste em Hangzhou, e se casam imediatamente. O monge local, Fahai, que é capaz de sentir a presença de seres sobrenaturais por meio de seu bojo encantado, acredita que Bai Suzhen é um espírito maligno, que roubou um elixir mágico, e decide separar os dois jovens. No dia do duplo cinco[3], o monge procura Xu Xian e insinua-lhe a beber com sua esposa. Bai Suzhen ao sorver o destilado, revela a sua forma original, e Xu Xuan morre de susto ao ver a serpente branca. Bai luta contra guardiões celestiais para roubar uma erva mágica que o salvará. Recuperado, ele foge. O monge Fahai acolhe Xu Xian no seu templo e mantém-no como prisioneiro. Bai, com a ajuda de Xiao Qing, utiliza os seus poderes mágicos para ter o amado de volta a seu lado, mas é derrotada. Ao inundar toda a região em que se localiza o templo, ela prejudica todos os seres vivos, e os deuses ajudam o monge Fahai a captura-la e aprisiona-a sob a Torre Leifeng. Bai Suzhen após dar a luz, entrega o filho para Xu Xian criar. Depois de adulto, o filho libertará a mãe da prisão e a família finalmente fica reunida.

A Lenda da Cobra Branca é ovacionada pelo público há séculos, e se constitui mais uma prova do sentimento dúbio de encantamento e medo pela serpente. A personagem Bai Suzhen reúne tradicionais virtudes femininas à personalidade heroica e mágica, um tanto contraditória à imagem da mulher Chinesa, enquanto a serpente verde, Xiao Qing, chama a atenção por sua lealdade incondicional à Bai.

Enfim,

Essas linhas traçaram um panorama da simbologia envolvida no ano da serpente. Deixo aos leitores meus votos de felicitação ao Ano Novo Chinês, especialmente dedicada aos nativos de serpente, na cantiga:

Vaidoso, andas sempre todo ajeitado

Por isso, todos se encantam por ti

Dizem que és astuto e charmoso

Mas não têm a coragem de te elogiar

No fundo tens bom coração — mas se mexer contigo — não fazes cerimônia.

Muitos falam de ti, mas és incompreendido.

Se gostem ou não de ti, continuas a ser o mesmo:

Detestas invernos rigorosos

Adoras guardar segredos

Discrição — é a tua palavra-chave

Ages sem deixar rastros

Às vezes, perturbas, outras vezes, és incomodado

Não és de meter foice na seara alheia e segues o teu caminho.

 

恭喜发财 – Próspero Ano Novo!

 

Bibliografia:

Capparelli, Sérgio; Schmaltz, Márcia (2007) 50 Fábulas da China Fabulosa. Porto Alegre: L&PM.

Eberhard, Wolfram (2000) A Dictionary of Chinese Symbols. Londres: Routledge.

He, Xingliang (1991)《图腾文化与人类诸文化的起源》 [A cultura do totem e a origem da civilização]. Beijing: Zhongguo Wenlian.

Schmaltz, Márcia; Capparelli, Sérgio (2010) Contos Sobrenaturais Chineses. Porto Alegre: L&PM.

Shan’haijing [O livro da natureza] (2007) Haikou: Nanhai Chubanshe.

Simão, Jorge Rodrigues “Amanhã, sábado, celebra-se o aniversário da deusa Nu Wa”, in Hoje Macau dia 10 de fevereiro de 2012. Disponível em: http://hojemacau.com.mo/?p=28702, acessado em 08 de dezembro de 2012.

Tao, Yang; Zhong Xiubian (1990)《中国神话》[Mitologia Chinesa]. Shanghai: Shanghai Wenyi.

Wang, Chong (1990)《论衡》[Sobre a balança]. Yuan Huanzhong (glosa). Guizhou: Guizhou Renmin chubanshe.

Wang, Xun (1998)《腾蛇乘雾》 [A serpente na neblina]. Série cultura zodiacal Chinesa. Beijing: Academia Chinesa de Ciências Sociais.

 


[1] Leia “O ano do coelho”, na Revista Macau, 21, 2010.

[2] A Planície Central é compreendida pelo Centro e Oeste da província de Henan, Centro e Sul da província de Hebei e Sul da província da Shanxi onde se concentrava a etnia Han (Wang 1998: 16).

[3] Leia “O dia do duplo cinco”, na Revista Macau, 19, 2010.

 

Publicado em Não categorizado | Marcado com , | Deixe um comentário

O moderno teatro chinês: desenvolvimento, percalços e pós-modernidade.

(A ser publicado na revista Olhares, Escola de teatro Celia Helena)

Resumo: Geralmente se diz que existem três possibilidades quanto à entrada de espécimes exóticas em um dado ecossistema: sobrevivência, extinção ou mutação. Na China, também é observado este fenômeno similar nas artes cênicas, quando o teatro moderno realista ocidental foi transplantado a este sistema cultural. Este artigo apresenta o panorama do desenvolvimento do moderno teatro na China. Para tanto, inicia por uma breve descrição do teatro tradicional chinês para depois expor o contexto da introdução da arte dramática ocidental, os seus principais períodos teatrais e encenações no último século.

Palavras-chave: teatro moderno, história do teatro, China.

A dramaturgia na China pode ser remontada há mais de três mil anos. Os argumentos do tradicional teatro chinês unem elementos trágicos e cômicos, misturados com canto, dança, narração poética e luta marcial (TIAN, 1993, p. 39). Trata-se de uma dramatização de feitos heroicos históricos e lendas populares. Outra forma de representação é um diálogo com uma linguagem muito próxima da fala corrente e pantomimas com gestos. Em seu humor amável se reflete e satiriza a sociedade, como resultado, instruindo e entretendo. Conforme Huang “o teatro tradicional chinês se distingue fundamentalmente do teatro ocidental porque bane a ilusão da vida real cotidiana enquanto o outro o produz.” (1982, p.98), segundo o mesmo autor, uma das principais diferenças reside nas encenações tradicionais chinesas não existir a quarta parede, ou seja, a performance é claramente dirigida aos espectadores. Dessa forma, o cenário se torna secundário, enquanto que a atuação adquire importância maior em relação ao teatro ocidental: o ambiente é criado pelo ator; o cenário e a atmosfera têm que ser construídos pela interpretação do ator.

Entretanto, o teatro tradicional chinês foi desacreditado no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, ao ser identificado como representante das coisas que provocavam o atraso na China. É importante notar que esse período foi marcado pela invasão estrangeira, fraqueza da liderança do Estado, guerras e insurreições populares. Nesse contexto cresceu um movimento em que jovens chineses nacionalistas clamavam por reformas, exigiam a expulsão dos invasores estrangeiros e acabariam por somar forças à derrocada do despotismo da dinastia Qing (1644-1911). Surgia, assim, os movimentos modernistas Nova Cultura e Quatro de Maio em que promoviam a língua vernácula, como um instrumento de escrita para todos os propósitos comunicativos (FAIRBANK; GOLDMAN, 2006, p. 223ss.). Os movimentos também introduziam novas expressões estrangeiras, a fim de erigir em outras bases uma nova identidade étnica à República da China recém-instalada em 1911. Dessa forma, semelhante à tendência seguida por outras áreas culturais, o romantismo, o realismo, o naturalismo e o modernismo ocidentais foram introduzidos de uma só vez à China no final do século XIX e início do século XX, desatrelado ao desenvolvimento sócio histórico como foi no Ocidente (CHUNG, 1995, p. iv). Sob a égide de urgência por mudanças sociais, jovens universitários regressos do exterior exigiam a remodelação do teatro chinês (DING, 2009, p.16). As primeiras iniciativas partiram dos próprios atores da escola clássica que introduziram figurinos contemporâneos, dramas com conteúdos de denúncia social, bem como diminuíram o canto e a dança em detrimento do diálogo. Surgia, assim, um período em que sincretizava a tradição do teatro chinês com o teatro ocidental.

O período germinal (1899-1917)

Cartaz A cabana do tio Tomás (1907)

A cabana do tio Tomás foi uma das primeiras encenações do teatro moderno chinês em 1907.

As missões protestantes localizadas em Xangai foram uma das pioneiras no esforço para tornar a literatura disponível ao homem comum. A primeira encenação Guanchang choushi [A escandalosa história do funcionalismo] data do natal de 1899, em que alunos do Instituto São João (Saint John’s College) subiram ao palco vestindo trajes contemporâneos, não cantaram e tão pouco dançaram, como o costume do teatro clássico chinês. Nascia o chamado período xinju[1] [teatro novo]. A revisão da literatura realizada por Chung (1995, p. 240) indica que a linguagem e os movimentos assemelhavam-se àquelas encenações da vida cotidiana do teatro ocidental, contudo de forma ainda amadora. Por outro lado, estudantes que realizavam intercâmbio universitário no Japão, no início do século XX, se embebiam nas transformações culturais que ora ocorriam na Terra do Sol Nascente — o movimento shimpa japonês[2]. Em fevereiro de 1907, a trupe chinesa Chunliu encenou o terceiro ato de A dama das camélias e mais tarde A cabana do pai Tomás no auditório da Associação de Cristãos Chineses em Tóquio e recebeu boa crítica. Essas duas trupes de vanguarda à época lideraram o surgimento do Wenminju [Teatro Civil] que revolucionaram a arte dramática chinesa a partir da herança da performance tradicional. Em termos de dramaturgia, na fase germinal, havia o predomínio do improviso, seguindo a tradição das trupes populares. Segundo Ding (2009, p. 23) “o teatro de improviso favorecia a necessidade de encenar várias peças diferentes por dia e, durante a sua fase inicial, funcionou como um propulsor positivo ao desenvolvimento da arte dramática, instrumentalizando a criatividade dos atores daquele período.” O estudioso ainda afirma que o esquema promoveu a divulgação do novo gênero teatral na China, contudo devido à falta de unicidade conceitual e prática de atuação fez com que se generalizasse a má qualidade das performances, o que acabou sendo uma das causas da decadência do Teatro Civil. Em termos de estrutura da trama, nessa fase do teatro chinês, seguia-se a prática do teatro tradicional chinês, ou seja, comédias sarcásticas ou tragédias com grand finale. Sublinhava-se a narrativa linear e dotada de unidade de ação. Empregavam-se mais cenas atuadas do que narrativas. No quarto ato de Gonghe wansui [Longa vida à república], inspirado em O pacto social de Rousseau, por exemplo, é encenado o ataque à Nanquim através da passagem das três armas acompanhadas da banda marcial no palco, sem nenhum diálogo. Também havia o predomínio dos gêneros saga e episódica, como Mulan. Para fortalecer a crítica social, se utilizavam de improvisos cômicos em meio aos atos, muitas vezes não relacionados diretamente ao enredo da trama, contudo com forte apelo de denúncia à corrupção generalizada. Em Guanchang xianxing ji [A materialização do funcionalismo], há uma cena em que um estudante intercambista regressa do exterior, compra um cargo de funcionário público e retorna a sua aldeia. Ao vê-lo vestido em trajes de mandarim e calçando sapatos de couro, os camponeses lhe perguntam qual é o seu cargo e o ex-estudante responde: “Sou da etnia Han, funcionário da dinastia manchu e me alimento de comida estrangeira. Isto quer dizer que tenho o corpo de um Han, me visto como um manchu e calço sapato de inglês”[3], essa cena sempre levava o público às gargalhadas devido ao papel caricato da personagem (DING 2009, p. 24). O terceiro aspecto diz respeito à rigidez dos tipos de papeis, que basicamente eram divididos em quatro caracteres: xiaosheng (homem jovem), laosheng (homem velho), dan(mulher) e cômico. A popularidade dessa nova forma teatral foi tamanha, que a burguesia emergente logo a viu como uma ótima oportunidade de negócio. Em 1914, apenas em Xangai, existiam dezenas de trupes com mais de mil atores profissionais, que haviam encenado mais de uma centena de peças teatrais. Contudo, esses universitários não conseguiam rendimento suficiente para manter o seu sustento e, a partir de 1917, o movimento do Teatro Civil arrefeceu, não apenas devido ao esgotamento da fórmula, à falta de fundamentação e técnica dos atores, mas principalmente, por seu caráter reformador — contrário aos anseios de urgência de mudança radical daquele período chinês.

1915_Um centavo

Um centavo (1915), à direita o prêmie Zhou Enlai.

O teatro de vanguarda (1918-1929)

Entusiasta do modernismo, Hu Shi promoveu grandes mudanças na cultura chinesa, escreveu o primeiro drama teatral moderno.

Hu Shi, escritor e intelectual, promoveu grandes mudanças na cultura chinesa, escreveu o primeiro drama teatral moderno.

O segundo marco do moderno teatro chinês foi impulsionado pelas publicações de traduções literárias estrangeiras, principalmente os dramas de Henrik Ibsen, Máximo Gorki e George Bernard Shaw, entre outros. A introdução da literatura ocidental à China foi comparada pelo escritor modernista Lu Xun ao “fogo trazido do Olimpo à humanidade” enquanto outros a considerava como “a munição para a libertação do povo” (DING 2009, p. 31). O movimento Quatro de Maio de 1919 radicalizou a negação de tudo o que tivesse relação com a cultura tradicional chinesa — inclusive o teatro clássico, e a afirmação (ou exaltação) de novas formas de expressão. Nesse contexto, em geral, reconhecia-se o trabalho desenvolvido pela trupe Chunliu, citada acima, pela inovação e fidelidade aos preceitos do que se considerava teatro moderno.

Durante 1918 e 1919, a vanguarda do movimento Nova Cultura lançou um ataque frontal ao teatro tradicional chinês e ao Teatro Civil. Todos os números da revista Xin Qingnian [Nova Juventude] — o front da nova intelligentsia — foram dedicados à apresentação da literatura mundial acompanhada de traduções de obras, ao mesmo tempo em que defendia à imitação da forma de atuação do teatro moderno ocidental (Leste e Norte Europeu, para ser mais exato). Os jovens intelectuais identificavam a ópera de Pequim e suas variações como representantes da velha sociedade feudal, opressora e decadente. Em junho e outubro de 1918, Hu Shi (1891-1964), escritor e expoente do movimento da Nova Cultura, editava dois números dedicados à arte cênica o Especial Ibsen e a Reforma teatral. Hu Shi escrevia em defesa do realismo ibseniano: “Ibsen descreveu toda a realidade social da família, isso nos perturba e desperta a consciência de quanto ela é obscura e decadente e nos faz perceber a necessidade por reforma e revolução: esta é a essência do “ibsenismo”” (HU, 1918)

1924_Leque_Lady Windermere

O leque da senhorita Windermere (1924)

Em termos de dramaturgia, no período de 1908 e 1938, foram publicadas traduções de 387 peças teatrais, 96 obras de teoria teatral e mais de 20 revistas mensais ou quinzenais dedicadas à área, sem contar os artigos em jornais. Dramas imortais como Hamlet, O mercador de Veneza, O leque de Lady Windermere, A casa de bonecas e O submundo foram traduzidas mais de cinco vezes nas três primeiras décadas (O movimento teatral da China apud DING 2009, p. 37). De acordo com Tian (2006, p. 127), no final da década de 20, o moderno teatro realista ocidental já ocupava uma proporção considerável no total de obras publicadas, em que os principais movimentos estéticos mundiais como o simbolismo, o futurismo, o neorromantismo, o expressionismo, o esteticismo estavam disponíveis em língua vernácula ao leitor chinês. Portanto, o desenvolvimento das artes cênicas nas décadas de 20 e 30 estava atrelada à literatura, possuía uma forte conotação ideológica e era um instrumento de propaganda política.

No entanto, Ding (2009), Tian (1993, 2006), Chung (1995) são unânimes em observar a existência de uma distância estética no período inicial da transposição da arte teatral do Ocidente ao contexto chinês. Este desencontro de expectativas não se referia apenas à forma de atuação, mas principalmente relativa ao afastamento entre sistemas culturais distintos, cujo gosto era pelo romântico e o heroico adaptado de narrativas tradicionais e populares com forte matiz chinês — era a tradição. A nova elite cultural de 1919 publicava um grande volume de traduções de dramas ocidentais, mas enfrentava dificuldades de popularizar o novo estilo dramático. Percebia-se que o mais importante era promover um teatro de acordo com a realidade chinesa, ou seja, utilizar de “ingredientes locais” para a criação do moderno teatro chinês. Certa vez, Fu Sinian (1896-1950), um dos líderes do movimento de Quatro de Maio, afirmou: “como o drama ocidental é criado a partir da matéria-prima disponível naquela sociedade, ao encena-los nos palcos chineses, a mensagem é de difícil compreensão ao nosso público. É preferível que tomemos o moderno teatro ocidental como modelo, se retire dele a essência, e adaptemo-lo de acordo com a nossa realidade.” (LAI; LIU, 2007). Assim, em março de 1919, Hu Shi publicava na revista Novo jovem o drama autoral Zhongshen dashi [O assunto mais importante da vida], a primeira peça teatral realista moderna chinesa em língua vernácula. A farsa[4] em ato único retrata a busca de um jovem casal pela liberdade de escolha do cônjuge e emancipação feminina — duas das bandeiras inseridas dentro da agenda transformadora cultural do movimento Quatro de Maio de 1919. Esse drama, que só viria a ser encenado em 1923 por Hong Shen, mas serviu para abrir espaço para os dramaturgos Guo Moruo, Tian Han, Hong Shen, Ouyang Yuqian, Ding Xilin, Chen Dabei, entre outros, para criarem verdadeiras obras teatrais nacionais, seguindo o ocidente em espírito e compartilhando os ideiais revolucionários da Nova Juventude. Estes dramas propulsionaram a explosão do moderno teatro em toda a costa Leste e Sul da China e aumentando a receptividade dessa nova forma teatral (LAI; LIU, 2007). Nesse período destacam-se duas tendências artísticas: uma realista e outra com influência do romantismo.

Dramaturgos realistas como Ouyang Yuqian (1889-1962), Chen Dabei (1887-1944), Shen Yanbin (Maodun) (1896-1981) e Xiong Foxi (1900-1965) e outros fundaram a Minzhong xijushe [Sociedade Teatral Popular] em Xangai. As peças seguiam o estilo de A casa de bonecas, principalmente na transcriação recorrente do diálogo de Nora com o marido “nós devemos sentar e discutir o que aconteceu”, contudo Ding (2009, p. 57) observa a falta do desenvolvimento ou da problematização nesses dramas chineses, ou seja, problemas como a filialidade e a emancipação feminina são apenas levantados, mas não discutidos, tornando a problematização em uma tábula rasa. Hong Shen (1894-1955), dramaturgo e diretor teatral e de cinema, foi o primeiro a escrever um roteiro teatral, Mai li ren [O vendedor de peras], ainda em 1915. Estes dramaturgos são os representantes da escola Aimeiju [amador], transliteração fonética do inglês Amateur, para demarcar a sua atividade com finalidade não comercial e contraponto à escola do Teatro Civil. O lema do movimento era “a construção de uma verdadeira arte teatral, que vê o teatro como um meio de transformação social e pessoal, sem perder de vista o caráter essencial artístico do teatro.” (TIAN, 1993, P. 74). A escola se contrapunha ao Teatro Civil por seguir o roteiro e pela seriedade em cena. O movimento perdurou até o final de 1920.

Guo Muoruo e Tian Han são considerados representantes da escola romântica (DING 2009, p. 61), apesar de serem engajados com a transformação da realidade social chinesa.

Guo_Moruo_historiador_poeta_dramaturgo_fundador_moderno teatro epico

Guo Moruo, historiador, poeta e dramaturgo, um dos fundadores do moderno teatro épico chinês.

O drama de Guo Moruo (1892-1978), historiador, poeta e escritor, abusa de personagens clássicas. Os dramas Wang Zhaojun (1924), Nie Ying (1926) e Zhuo Wenjun (1927) compõe uma trilogia de denúncia da opressão feminina, com o predomínio de uma linguagem contemporânea. O teatro de Tian Han (1898-1968), dramaturgo, músico e poeta, caracteriza-se por uma linguagem autocêntrica, cujo drama funde sentimentos poéticos à realidade com uma imagem poética. O dramaturgo extravasou a emoção de angústia perante a exploração do novo pela sua geração em dramas como Kafeidian zhi yi ye [Uma noite na cafeteria] (1920), Huo hu zhi ye [Caçada noturna] (1922) e Hu shang beiju [Tragédia no lago] (1924) (cf. TIAN, 1993, p. 88ss.). Tian Han legou o método de criação da personagem ao moderno teatro chinês e a nomenclatura huaju [teatro] foi dada por ele como contraponto à ópera e ao musical.

No gênero comédia, Ding Xilin (1893-1974), dramaturgo e físico, não buscava a problematização e a instrução moral. O seu teatro caracteriza-se na descrição minuciosa do caractere e na construção da atmosfera da cena. Ele conseguiu com sucesso transpor a técnica da comédia inglesa para a transcriação humorística e sem sarcasmo de grandes problemas sociais chineses ao palco como em Yi zhi mafeng [Uma vespa] (1920) e Yapo [Opressão] (1925) (cf. TIAN, 1993, p. 92ss.).

Acompanhando o surgimento do moderno teatro chinês, também desponta a crítica e a investigação teatral. Temas como a natureza, a função social ou artística, a profissionalização teatral, a concepção sobre tragédia entre outros cresciam em meio à proliferação de encenações. Tian (1993, 94ss.) aponta que as concepções ainda eram superficiais, tendo em conta a velocidade em que fora introduzida a arte teatral ocidental no contexto chinês, por isso, tendiam à imaturidade, à radicalização, à parcialidade. Tian (1993, p. 116) também explica que no período inicial os intelectuais do movimento Nova Cultura promoviam “a reforma teatral”, movidos pelos ideais de transformação social. Isso por um lado foi positivo para incitar mudanças, mas suas vozes não penetravam na área, já que não faziam parte dela e faltava-lhes conhecimento de causa. Entretanto, a crítica serviu para que surgisse uma geração com maior embasamento teórico, entretanto mais distanciada da realidade chinesa.

Nessa fase, a narrativa linear e a imitação do real eram predominantes, o que confere, apesar da negação, uma forte influência do teatro tradicional chinês. Ding reconhece-a como uma etapa incubadora, em que a “digestão” da forma e do conteúdo do teatro ocidental se constituíra necessária ao surgimento da verdadeira nova expressão teatral chinesa (2009, p. 61), que será apresentada a seguir.

O período de amadurecimento (1930-1936)

Cao_Yu_considerado o Shakespeare chines

Cao Yu é considerado o Shakespeare chines.

A década de 1930 é considerada o período de amadurecimento do moderno teatro da China e que melhor retratou o aprofundamento das contradições de classe e de etnia. Por volta de 1932, Xiong Foxi organizou a primeira escola cênica experimental camponesa no interior de Hebei, que mais tarde participaria da resistência à invasão japonesa. O drama Leiyu [A tempestade] (1934) de Cao Yu é considerado a obra-prima do moderno teatro realista chinês (CHUNG, 1995, p. 243) e a materialização do “teatro novo” chinês (DING, 2009, p. 61). Cao Yu (1910-1996) foi o dramaturgo que melhor absorveu o espírito do moderno teatro ocidental para escrever dramas cujas temáticas tratavam da realidade chinesa. Entre as suas contribuições, destacam-se a ruptura com a narrativa linear e a introdução da narrativa psicológica. Críticos como Ding (2009, p. 43) e Tian (2006) avaliam Leiyu [A tempestade] com forte influência da tragédia grega, em que os personagens ficam subjugados à sorte do destino. Concomitantemente, a trama é estruturada com rigor, o caractere das personagens é complexo e engenhoso, que lembra Espectros de Ibsen. A trama da obra gravita em torno de uma família que se vê diante da destruição psicológica e física pela depravação moral de seus membros, dominados pela figura corrupta de Zhou Puyuan, o patriarca. Em Richu [O amanhecer] (1936), a temática da progressiva degradação moral de pessoas diante de uma sociedade hostil permanece na segunda obra de Cao Yu, porém o dramaturgo explora o estilo prosaico e impressivo de Três irmãs (Tchecov, 1901) no seu teatro. Nesse drama, narra-se a história de várias mulheres em Xangai, cujas vidas se desintegram em meio à falta de afeto e de compreensão da sociedade que as rodeia, presas a um destino trágico, do qual não podem escapar. Em 1937, foi lançado o seu terceiro drama, Yuanye [A selva] narra uma história de assassinatos e vinganças em uma floresta. Os elementos sobrenaturais e fantásticos nessa obra caíram no gosto da crítica, em uma época em que se valorizava mais o realismo social como o retratado por Wallace. A forma narrativa não realista faria com que este drama fosse reencenado nos anos 1980 e 1990, com a colaboração do próprio autor.

1934_A tempestade_Cao Yu

A tempestade (1934) de Cao Yu inaugura a fase de amadurecimento do teatro moderno chinês.

Nessa seção realizou-se um panorama histórico da introdução e aprendizagem da arte teatral moderna do ocidente nas três primeiras décadas do século vinte na China. Observa-se um período marcado pela exploração por novas formas de expressão, cuja trajetória foi marcada por percalços e dilemas. A vanguarda chinesa atuava em duas frentes: a luta pela derrocada da monarquia — o símbolo de uma tradição opressora, retrógada e decadente, e pela expulsão dos invasores estrangeiros e a construção de uma nova identidade cultural chinesa. Na fase germinal, a partir do final do século XIX, predominou o sincretismo da forma teatral ocidental ao teatro tradicional chinês, o grande volume de traduções da literatura ocidental e a respectiva encenação, que enfrentou o distanciamento estético do público receptor, consequência do impacto de diferentes sistemas culturais. Isto levou com que a vanguarda repensasse a sua práxis e adaptar o teatro realista ocidental — em espírito, e a escrever dramas que retratavam a realidade e os anseios de mudança social e cultural. Na década de 1930, o teatro chinês atingia a sua fase de maturidade em que rompeu com a estrutura da narrativa linear e desafiou a encenação. O período também é marcado pela proliferação de associações artísticas com a Liga Teatral de Esquerda de Xangai e a Associação de Promoção à Educação da Pessoa Comum da China. O período profícuo foi interrompido devido à invasão japonesa (1937-1945).

O período de resistência e libertação (1937-1949)

Teatro de rua chinês 1940

O teatro de rua foi utilizado como uma forma de mobilização das massas à resistência da invasão japonesa (foto de 1940).

Com a invasão japonesa em 1937 e a sucessiva guerra de resistência, o movimento teatral chinês serviu como um meio de propaganda para a mobilização das massas. Várias sociedades teatrais de resistência foram organizadas em todo o país e as diferenças entre as mais diversas escolas foram deixadas de lado, a favor da causa. Nesse contexto, predominou o estilo narrativo linear, cuja temática verssava sobre a realidade da guerra, exaltava a resistência patriótica e denunciava a traição à pátria. O período contigencial se constituiu como uma oportunidade única para as trupes modernistas urbanas se deslocarem ao campo e às regiões fronteiriças para a popularização do moderno teatro, formando escolas em todo o território nacional, e, durante o processo, aprofundarem o seu conhecimento sobre a diversidade cultural e a realidade de seu país. Em termos de atuação, havia o predomínio de teatro de rua em ato único ou cenas rápidas devido às guerrilhas (TIAN, 1993, p. 224ss.).

Tian_Han_criador_Metodo_personagem

Tian Han, dramaturgo e diretor de teatro e cinema, autor do método de criação da personagem na China.

Com o crepúsculo da Segunda Guerra Mundial, a debilidade econômica e o enfraquecimento da aliança entre nacionalistas e comunistas, o movimental teatral enfrentava sérias dificuldades. O teatro de denúncia era reprimido nas áreas controladas[5] pelos nacionalistas (de Chiang Kai-chek) e de cessão estrangeira (Xangai), enquanto continuou a ser utilizado nas regiões de domínio das tropas da libertação (de Mao Zedong). Os dramaturgos nas áreas controladas recorriam à encenação de dramas históricos como forma de denúncia velada à realidade social chinesa e enfrentavam a inflação desenfreada e o alto valor de aluguel dos teatros. Entre 1941 e 1943, O dramaturo romantista Guo Moruo lançou seis dramas, que causaram grande impacto. Nas regiões de controle comunista, dramaturgos, atores eram tidos como soldados do Exército da Libertação e escreviam dramas com ideiais socialistas como a resistência contra as forças imperialistas, a reforma agrária, a igualdade de classe e a exaltação ao camponês e ao operário, etc. Segundo Ding (2009, p. 67) “devido à intensificação ideológica no início de 1940, os dramaturgos de  esquerda sincretizaram o realismo predito pelos movimentos da Nova Cultura e Quatro de Maio com a forma do teatro popular”, ou seja, utilizavam da estrutura do teatro popular tradicional com uma linguagem vernácula e temática revolucionária. A partir dessa linha teórica e diretiva surgiram o movimento Xinyang geju yungdong [movimento do teatro musical rebento] e Pingju gaige yundong [movimento de reforma da Ópera de Pequim], bem como, ainda em 1938, foi inaugurada uma escola de formação denominada de Instituto de Artes Lu Xun em Yan’an. Sha Kefu (1903-1961), dramaturgo e fundador do Instituto, em apenas um ano escreveu mais de 30 peças de diversos gêneros como musical, adaptação de teatro clássico, monólogo e esquete. Esses movimentos renovaram os dramas tradicionais com uma linguagem acessível, revestido em um novo cenário que servia como uma poderosa máquina de propaganda política, mobilizadora das massas e se constituíu em uma importante fase ao amadurecimento do moderno teatro chinês.

dramatrugo Xia Yan

O dramaturgo Xia Yan foi um dos primeiros a problematizar o teatro propaganda. Foi duramente punido durante a Revolução Cultural (1966-1976).

Por outro lado, o período prolongado de guerra suscitou uma consciência da classe teatral. Em 1944, o dramaturgo Xia Yan (1900-1995) relata que durante certo período, o trabalho das trupes teatrais funcionou, “mas gradativamente enfraquecia, apenas a metade das trupes conseguia seguir atuando em condições extremas, perante as doenças, a pobreza, a falta de jornais e livros e o fastio de encenações que não agradavam mais nem o povo, nem os soldados.” E, se queixa: “Finalmente, esses homens foram abandonos à sorte. Deram a sua juventude para a causa, mas não obtiveram a atenção e o apoio das pessoas.”. Na retaguarda, segundo o dramaturgo, a situação também era semelhante: “o teatro se tornou um evento de entretenimento de uma minoria, uma forma de captação de recursos e para a taxação de impostos. Dizem do papel de instrução do teatro, da sua vocação necessária de resistência. Contudo, o que se percebe, é a classe teatral comprimida entre duas paredes e que não consegue mais desenvolver a Arte.” (TIAN, 1993, p. 244-5). Conforme Tian (1993, p. 239), no final desse período, a quantidade de peças produzidas até o final do período elevou a qualidade do moderno teatro chinês, que atingia o amadurecimento e a unidade entre o conteúdo e a forma, contudo a classe teatral se deparava com a dicotomia “arte” versus “propaganda”, “sujetivismo” versus “objetivismo”, “social” versus “individual”. Prenúncio de uma nova era com forte viés político, que se aproximava[6].

Uma boa ilustração da politização teatral é a discussão promovida pelo jornal Xinhua [Nova China] em 1945. A estreia das peças Qingming qianhou [Por volta do dia dos Finados], único drama do escritor Maodun, e Fangcai tianya [A baunilha[7] dos confins da terra] do dramaturgo Xia Yan suscitaram o debate. O primeiro drama é inspirado no caso verídico do vazamento de uma medida econômica de conversão da moeda em ouro, no qual apenas é punido um bancário. A trama ocorre em Chongqing, capital emergencial da China durante a guerra sino-japonesa, em que um industrial patriota transfere a sua fábrica para a cidade e enfrenta a administração burocrática do Partido Nacionalista, em que o funcionalismo desenfreadamente corrupto impede o desenvolvimento industrial. A trama da segunda peça retrata a relação desgastada de Shang Zhihui e Shi Yongfang. O marido conhece Xiaoyun, sobrinha de seu amigo, e logo os dois se apaixonam. A mulher ao descobir a relação dos dois, pede à Xiaoyun ajuda, enquanto Meng também aconselha Shang a desistir dessa relação. Os amantes se separam e Xiaoyun vai para a guerra de resistência japonesa.

O setor cultural progressista da região controlada pelos nacionalistas manifestou-se contrária às atuações sem fins políticos, entrementes os críticos consideraram “o drama [de Maodun] satisfatório, apesar de estar impregnado de chavões e formalismo, denuncia um Estado opressor e corrupto, e há um bom desenlace da trama, que indica uma solução a ser seguida contra o estado das coisas.” (TIAN, 1993, p. 255). Os mesmos críticos ainda disseram que peças como de Xia Yan “constituíam o perigo real, pois o não formalismo encobria o antipolítico; utilizavam-se do subjetivismo para manifestar a sua postura irracional, travestiam-se como contrários aos costumes para dissimular a sua posição antimarxista.”, quanto à trama ponderaram que “apesar de existir crítica na trama, o seu cerne versa sobre o conflito amoroso, cujo personagem não consegue se desvenciliar: ele localizado “no fim do mundo” e pensando na “baunilha”, não fornece ao público uma força transformadora.” (Ibid.). Por fim, profetizaram que “a maior tragédia humana não é a amorosa e sim a luta entre as classes.” (Ibid.). Wang Rong, membro da Liga de escritores de esquerda, rebateu dizendo que “o realismo não deveria se centrar na inclinação política, mas fortalecer e solver a visão subjetiva do autor à realidade objetiva.” (Idem, p. 257) E ainda defendeu a arte realista como herdeira da tradição revolucionária do movimento Quatro de Maio, cuja essência era democrática, libertária e progressista, e dispensava de somar insumos partidários e classistas, advindas de teorias políticas tendenciosas. Por fim, manifestou que a missão da arte realista era fundir a objetividade e a subjetividade que reflete os sentimentos e a realidade das massas na sua totalidade. Quanto à trama de Xia Yan disse que o desenlace da protagonista ir para o campo da batalha, reflete o engajamento do autor realista. Essas visões antagônicas quanto à função política e social do teatro irão se polarizar nas décadas seguintes, que causará a prisão em massa da classe teatral.

Enquanto isso, o moderno teatro se proliferava na área rural. Em 1945, apenas numa região de Shandong havia mais de 120 trupes teatrais, uma trupe para cada dez aldeias, o que revela a popularização do moderno teatro realista na China. O movimento de vanguarda conseguiu romper barreiras de hábitos tradicionais arraigados, como a participação das mulheres e sua atuação em conjunta com os homens. (TIAN, 1993, p. 294).

O período da República Popular da China e a Revolução Cultural (1949-1976)

Na seção anterior foi apresentada que as diferentes escolas teatrais reivindicavam-se como descendentes do enquadre de ação construída pelo teatro de vanguarda. Porém, a Escola Teatral da Libertação ultrapassou a fase de imitação dos dramas de Henrik Ibsen e George Bernard Shaw e conseguiu massificar um teatro com forte conotação político-ideológica. Ding justifica esse estado da arte “inevitável devido à contingência histórica” e, “perante os inimigos e sendo a classe teatral integrante do movimento de libertação da China, a sua liderança teve que fazer escolhas e assumir a tarefa de propagação do ideal revolucionário, nesse contexto, frequentemente privilegiou o conteúdo em relação à forma” (2009, p. 71) Em termos de arte dramática, em 1962, Huang Zuolin (1906-1994) lança a concepção da dramaturgia impressionista ao resgatar a tradição artística chinesa que deveria resultar numa “arte do proletariado, isto é, revolucionária, étnica e popular” (DING, p. 205).

1942_poeta Quyuan_Guo Moruo

O poeta Quyuan (1942), um drama épico, de Guo Moruo.

Os teatrólogos chineses dividem este período em antes (1949-1966) e depois da Revolução Cultural (1966-1976). No primeiro período destacam-se os dramas épicos, menos românticos e com características mais autorais como Guan Huanqing [Guan Huanqing, o dramaturgo] (1958), uma exaltação ao artista do povo do século XII, e Wencheng gongzhu [A princesa Wencheng], a princesa Han que selou a aliança com o Tibete (1960), que representam as obras-primas de Tian Han. Cai Wenji [A poetisa Cai Wenji] (1959) e Wuzetian [Wu Zetian, a imperatriz da dinastia Tang] (1962) de Guo Moruo. Longxugou [O bairro Longxugou] (1950) e Chaguan [A casa de chá] (1957) de Lao She. Estes dois últimos inovaram novamente a arte cênica chinesa e são considerados os dramas representativos da terceira geração do moderno teatro chinês.

Lao She escritor

Lao She, escritor, é considerado dramaturgo da 3a. geração do teatro moderno chinês.

Lao She (1899-1966) já era um escritor popular na década de 1930 pelo romance O camelo Xiangzi, contudo no âmbito do teatro é considerado um dramaturgo da terceira geração. Com a invasão japonesa na década de 1940, ele se mudou para Chongqing, Sudoeste chinês, para colaborar com a resistência, período em que escreveu sete dramas como Mianzi wenti [Questão de honra], Shei xian dao le Chongqing [Quem chega primeiro a Chongqing?] todas de 1944. De personalidade humilde e dedicada, Lao She costumava dizer que “o que escrevia não parecia com drama e sim com um romance” (Ding, 2009, p. 86). Com a peça Longxugou, cuja trama retrata o processo de conscientização do governo popular por um grupo de trabalhadores e moradores do bairro homônimo em Pequim. O autor é aclamado pelo público e pela crítica, devido à peça transbordar sentimentos humanos, obtidos graças a uma construção minuciosa dos caracteres, modelada nas pessoas que conheceu na sua infância, cuja linguagem é uma reprodução fiel do subúrbio da capital. A peça provoca a identificação do público com os personagens do drama. No mesmo ano, o autor foi condecorado com o título de artista do povo e isso o encoraja para seguir na carreira, escrevendo 23 peças musicais, infantis, óperas, entre outros. Em 1958 estreia A casa de chá, sucesso de público, mas não da crítica. Nesse período a China entrava no primeiro período dos “vinte anos perdidos”[8], em que eram exigidos dos círculos intelectuais lealdade total ao sistema comunista[9] e a trama foi considerada contrária aos ditames do sistema por não se manifestar claramente contrário aos “Quatro Velhos Conceitos” — velhas ideias, velha cultura, velhos costumes e velhos hábitos (FAIRBANK; MERLE, 2006, p.360). Perseguido pelas Guardas Vermelhas, Lao She desapontara-se com o rumo do regime e suicida-se no lago Taihu em Pequim em 1966.

A trama ocorre na casa de chá Yutaiem Pequim, em três atos que perpassa pela derrocada da dinastia imperial, o período de domínio militar e da invasão japonesa, eventos que provocam mudanças na vida de seus setenta frequentadores em cinquenta anos.

Casa de Cha

Casa de chá encenada em 1958 em Pequim.

Interessante notar a complexidade do drama em que envolve dezenas de personagens, cujas trajetória individual evoluem e se entrelaçam durante a narrativa, se constituindo num verdadeiro mosaico social e histórico. A unidade dramática é conferida ao proprietário da casa de chá e sua luta para a manutenção do estabelecimento. Entre as inovações, o destaque especial é a falta de um conflito e um desenlace tradicional do drama. A revisão realizada por Tian (1993, p. 443ss.) e Ding (2006, p. 85ss.) fornecem uma extensa lista de motivos do sucesso de A casa de chá, em que se destaca a representação vívida de seus personagens na tragédia épica, causando a proximidade estética com o público receptor. Entrementes, à época, foram poucos os críticos que conseguiram perceber a dimensão do drama como um ritual fúnebre de despedida ao passado.

1963_O sentinela à luz do neon

O sentinela à luz do neon de 1963 é uma das peças representativas do teatro realista e socialista chinês.

A partir de 1957 intensifica-se cada vez mais o movimento “antidireitista” e, em 1965 é publicado um artigo denunciando a peça Hairui baguan [A demissão de Hai Rui] (1960) como uma crítica velada ao Partido Comunista por um dos membros da Gangue dos Quatro, o que leva a detenção do autor e a várias prisões. O artigo é considerado um prenúnciou da Revolução Cultural (1966-1976), que perseguiria toda a classe teatral. Nesse período, segundo a revisão bibliográfica, predominou o teatro realista socialista com características chinesas.

 

 

 

O renascimento do teatro: o movimento neorealista

Com a Reforma e Abertura a partir de 1978, grandes transformações ocorreram no teatro chinês nas décadas de 1980 e 1990. O período foi marcado por encenações dramáticas, cujos argumentos retomam a problematização social — como o teatro de vanguarda de 1920, e montagens dos dramas das gerações de 1930 a 1960. Apesar da popularidade inicial, gradualmente a temática se desgastou, fazendo com que surgisse um alerta de crise que provocou a discussão sobre a concepção teatral. Conforme Ding (2006, p. 98) a crise enfrentada em meados de 1980 são de causas diversas: a concorrência com a popularização da TV e do cinema, simplificação e ideologização da temática social e a falta de qualidade estética. A crise levou o movimento artístico a discutir a concepção do teatro chinês, se esse resumiria-se ao modelo teatral de Ibsen, de Brecht ou de Mei Lanfang (1894-1961), ator da Ópera de Pequim? O sistema de construção da personagem de Stanislaviski seria a única possível? O debate teórico redirecionou-se ao palco, o que revela transformações a nível conceptual do sistema teatral chinês. Peças das mais diversas escolas ocidentais são encenadas na Terra do Dragão, ao mesmo tempo em que a ópera tradicional chinesa chama a atenção e é introduzida e adaptada ao drama moderno.

1982_Sinal absoluto_Lin Zhaohua

Em 1982, Sinal absoluto de Lin Zhaohua inaugura o ressurgimento do teatro chinês após a abertura política (1978).

Em meio a esse contexto, surge o teatro experimental, que no período se referia a metodologias cênicas que fugissem do realismo e a pulverização de gêneros de encenação, mais tarde, “adquiria conotações chinesas, já que não era um movimento de contracultura como no Ocidente, mas buscava viabilização financeira e enfatizava a popularização do teatro, especialmente em salas alternativas” (Ding, 2009, p. 264). Em 1982, estreiava Juedui xinhao [Sinal absoluto] dirigido por Lin Zhaohua em Pequim numa pequena sala de ensaio e, em Xangai, estreia Muqin de ge [A música da mãe] com a direção de Hu Weimin num teatro de arena, que foram as primeiras do gênero, enquanto no restante do páis ainda predominava o moderno teatro realista. Pouco mais tarde, a temática complexificava-se ao explorar a introspecção: Yi ge sizhe dui shengzhe de fangwen [A visita de um morto a um vivo], WM women [Nós - Nós], entre outros, que descrevem a dupla personalidade existente no humano e determinados comportamentos psicológicos extraordinários (Ding, 2006, p. 242). Outras peças como Chezhan [A estação] trabalha ao nível simbólico o que subjaz à realidade. Depois de 1985, a China é tomada por uma “febre cultural”, isto é, o resgate das raízes culturais encobertas pela radicalização do regime. A trama da peça Gourye niepan [O nirvana do senhor Gour] (1986) dirigido por Lin Zhaohua (1936- ), um dos diretores mais produtivos da atualidade, problematiza a relação dúbia entre o camponês e o latifundiário. Se anteriormente eram vistos como antagônicos na luta de classes, na peça é trabalhada a condição cultural e psicológica compartilhada entre classes distintas: a mesquinharia, o conservadorismo, a cobiça, a diligência, etc., através do desenrolar da sorte durante trinta anos de Gour, um camponês comum. Gour como qualquer chinês rural deposita toda a sua esperança em um pedaço de terra. O pai de Gour comeu um cachorro vivo para ganhar uma aposta por meio hectare de terra. Com a Libertação da China em 1949, Gour consegue obter a terra, a casa e a mão da filha do latifundiário. No auge de sua felicidade, se depara com a política da cooperativa agrícola, momento em que tem que socializar a sua recém-adquirida propriedade, e a sua vida se torna uma tragédia pessoal. Depois de Gour conseguir sobreviver à Revolução Cultural, ele restitui o seu direito a terra. Nessa altura, próximo dos setenta anos, seu filho planeja derrubar a casa para construir uma fábrica. Gour é o símbolo de uma geração sacrificada que constitui uma tragédia social. A encenação desenvolve-se em retrospectiva, em que inicia com Gour perturbado e querendo botar fogo na casa. Segundo Ding (2009, p. 101), o autor enfatiza a reflexão cultural mais do que os acontecimentos políticos. Em 1989, é encenada em Nanquim a primeira peça do gênero teatro do absurdo Wuli de maotouying[A coruja dentro do quarto] no primeiro festival de teatro experimental com a participação de treze dramas.

1986_O nirvana do sr Gou'r_Lin Zhaohua

Em 1986, O nirvana do sr Gou’r de Lin Zhaohua inaugura o teatro experimental chinês.

A década de 1980 é caracterizada como um período de despertar devido ao ambiente mais liberal, à multiculturalidade do campo artístico e que, a partir de 1985, consegue cativar um público espectador, apesar da crise financeira que assola o páis. Entretanto, como sinaliza Ding (2009, p. 343), a abertura política, a elevação do nível de exigência do público e a concorrência com outras formas de arte se tornaram uma pressão à classe teatral para que ela também evoluísse. O teatro se tornava mais independente da política e construía um padrão aestético próprio.

Em 1991, estreia em Xangai, o primeiro melodrama liushou nvshi [A guarda] com mais de 300 encenações e faz com que o gênero fosse reconhecido em 1993, durante o Festival do teatro experimental da China em Pequim. A década de 1990 também é caracterizada pela influência do teatro do absurdo. Em 1999 estreia Lian’ai de xiniu [O rinoceronte apaixonado] peça representativa do diretor Meng Jinghui (1964- ), que até 2012 já completou mil apresentações. A trama é sobre um tratador do zoológico, responsável pelo rinoceronte, que se apaixona loucamente pela sua vizinha Mingming. Para ganhar o seu amor, o tratador tentou de todas as maneiras, mas tudo foi em vão. Mingming é apaixonada por Chen Fei que também nunca a amou. Por fim, o tratador sequestra Mingming em nome do amor e mata o rinoceronte. Meng é considerado como um dos diretores mais profícuo do período, autor da maior peça infantil de todos os tempos da China — Moshan [A montanha enfeitiçada] (2006). Meng também realiza adaptações de dramas ocidentais. Em 1994, estreia Lihun bie zai zhao wo [Não me procure depois do divórcio], peça comercial e marco da profissionalização teatral e que conseguiu grandes bilheterias. Mou Sen (1963- ) é considerado como produtor e diretor pós-modernista, líder da trupe “Wa” xiju chejian [Oficina Teatral “Sapo”]. As peças Guanyu ‘bi’an’ de hanyu yufa taolun [Discussão da gramática chinesa sobre faramita] (1992), Ling dang’an [Arquivo zero] (1994), entre outras, não possuem guião e argumento. Em Yu aizi youguan [Em relação à AIDS] (1994) desce em meio ao palco metade de um porco que é conduzido pelos atores a um moedor de carne e preparado junto a legumes e verduras para ser servido como almondega e pastel ao vivo. Durante a encenação o público é convidado para relatar junto aos atores o que quiserem, concomitantemente, dois pedreiros especialmente contratados constroem três paredes no entorno da cena (DING 2009, p. 267). Esses diretores se constituem como a vanguarda do teatro chinês nos dias de hoje.

1994_Arquivo zero_Mou Sen

Arquivo Zero (1994) de Mou Sen representa o teatro experimental nos dias de hoje.

1999_Rinoceronte_apaixonado_cena

O rinoceronte apaixonado (1999) é uma das peças mais encenadas na atualidade chinesa.

1999_Assembleia legislativa Lai

A Assembleia legislativa (1999) uma das primeiras cooperações em artes cênicas entre o estreito de Taiwan e a China continental.

 

 

 

 

Palavras finais

A história não se repete. O contexto do movimento de libertação do pensamento promovido pela elite cultural de Quatro de Maio de 1919 foi muito diferente da era da Reforma e Abertura (1978- ). Contudo, como afirma Chung (2009, p. 49), os chineses contemporaneos, herdeiros de uma tradição hábil em absorver, sincretizar e adaptar o que vem de fora à cultura local, podem se tornar o novo motor propulsor do progresso do teatro moderno chinês no próximo período. O crítico sugere que a cultura do empréstimo ou transposição do teatro estrangeiro é justificável para servir de base à nova forma do teatro chinês. Chung (1995, p. 251) também afirma que o moderno teatro chinês atualmente se localiza no período pós-colonialista e ainda é um projeto incompleto.

Quadro: Cronologia do desenvolvimento do teatro moderno chinês

1899: Estudantes de Xangai encenam A escandalosa história do funcionalismo.

1907: A Trupe Chunliu encena Dama das camélias em Tóquio.

1910: O movimento Teatro Civil prospera.

1918: A revista Nova Juventude promove debates sobre o rumo teatral chinês.

1921: Início do movimento Teatro Amador.

1925: Início do movimento Teatro Nacional.

1928: O termo Huaju torna-se a denominação do teatro moderno chinês.

1933: O dramaturgo Cao Yu escreve Leiyu [A tempestade].

1937: Início do movimento de resistência à invasão japonesa.

1941: Estreia Estação da neblina em Chongqing

1942: Colóquio de artes em Yan’an (promovida por Mao Zedong)

1950: Fundação do Teatro da Arte Popular em Xangai e Pequim

1956: Primeiro festival nacional de teatro na China.

1958: Estreia A casa de chá de Lao She.

1965: Crítica da Gangue dos Quatro à Hairui baguan [A demissão de Hai Rui].

1966-1976: Revolução Cultural

1982: Estreia Sinal absoluto. Início do teatro experimental.

1989: Quatro de junho: incidente da Praça Tian’anmen

1993: Festival de teatro experimental (Little Theatre Movement) da China, reconhece-se o melodrama

Referências bibliográficas

CHUNG, Mingde. Xiandai xiju jiangzuo: cong xieshi zhuyi dao houxiandai zhuyi [O teatro moderno: do realismo ao pós-modernismo]. Taipei: Bookman, 1995. 276 p.

DING, Luonan. Ershi shiji Zhongguo xiju zhengtiguan [Panorama do teatro chinês no século XX]. Xangai: Wenyi, 2009. 298 p.

FAIRBANK, John; GOLDMAN, Merle. China: uma nova história. Tradução de Mariza Mota. Porto Alegre: L&PM, 2006. 520 p.

HUANG, Zuolin. “A supplement to Brecht’s ‘Alienation effects in Chinese acting’”, in TATLOW, Antony and WONG, Tak-wai (eds.) Brecht and East Asian Theatre: The proceedings of a Conference on Brecht in East Asian Theatre. (pg. 96-110) Hong Kong: Hong Kong University Press, 1982. 14 p.

LIAO, Ben; LIU, Yanjun (2007). “Huaju: quanqiuhua jincheng zhong de yishu chuanbo yu zhuanxing” [Drama: a difusão da arte e sua transformação no processo de globalização]. Disponível em: http://www.chinawriter.com.cn/bk/2007-03-27/27870.html. Acessado em 31 de agosto de 2012.

TIAN, Benxiang. Xiandangdai xiju lun [Teoria do teatro contemporâneo e moderno]. Nanchang: Jiangxi gaoxiao, 2006. 376 p.

TIAN, Benxiang; JIAO, Xiangzhi. Zhongguo huajushi yanjiu gaishu [Panorama das investigações em história do teatro da China]. Tianjin: Tianjin guji. 523 p.

Imagens: jornal Guangming, disponível em: http://www.gmw.cn/content/2007-03/30/content_590745.htm, acessado em 16 de outubro de 2012.


[1] Adotamos o pinyin como transliteração fonética da escrita chinesa. Todas as traduções são de responsabilidade da autora. As acepções ou traduções diretas do chinês para o português estão sinalizadas entre parênteses retangulares.

[2] [escola nova]. Teatro de agitação política promovido pelo Partido Liberal japonês a partir de 1880, em que encenavam peças mais contemporâneas e realistas.

[3] A china possui mais de 80 etnias, sendo a etnia Han majoritária, mais de 90% da população total. A última dinastia monárquica pertencia a etnia manchu, nordeste da China, em 1644 e dominou até 1911.

[4] Definição dada pelo próprio autor como farce. Originalmente foi escrita em inglês para ser apresentado na Associação dos egressos dos Estados Unidos em Pequim, contudo desistiu-se da montagem, pois nenhuma aluna se predispôs a encena-la. Zhong (1995, p. 267) afirma que o termo “farsa”, empregado por Hu Shi, não se enquadra à definição da área teatral, por lhe faltar atuações extravagantes e humoradas. Segundo este pesquisador seria uma peça ao estilo de A casa de bonecas: uma crítica mordaz aos papeis sociais aceitos por homens e mulheres.

[5] O Estado era controlado pelo Guoming dang [Partido Nacionalista] de Jiang Jieshi [Chiang Kai-shek] e comandava as cidades. O Partido Comunista Chinês era a oposição perseguida pelo governo e sua ação de influência era no interior, enquanto na zona urbana, clandestina.

[6] Os escritores da revolução do início do século XX haviam focalizados os males e as contravenções do governo e os intelectuais modernos herdaram a tradição de exprobração, alertando para as imperfeições das autoridades. O controle da literatura pelo PCC tornou-se uma questão central. Em 1942, Mao Zedong [Mao Tse-tung] fez duas preleções em Yan’an e estabeleceu peremptoriamente que a literatura devia servir ao Estado, nesse caso à causa da revolução encabeçada pelo PCC (FARIBANK; MERLE, 2006, p. 299).

[7] Metáfora poética para se referir a homens e mulheres leais. Muito utilizada pelos poetas românticos chineses do período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C), dinastia Tang (618-907) e dinastia Song (960-1279).

[8] O termo “perdido” é utilizado no sentido que “talentos patrióticos foram ridicularizados e impedidos de ajudar no desenvolvimento da nação” (FAIRBANK; MERLE, 2006, p. 336).

[9] Em 1957, nas cidades e no campo, um novo grupo chegou ao poder formado por operários e camponeses com nível de escolaridade baixo, sem conhecimento exterior, repletos de xenofobia e anti-intelectualismo (FAIRBANK; MERLE, 2006, p. 337).

Publicado em Teatro chinês | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Escritor chinês inédito no Brasil ganha Nobel de Literatura

Patricia Moribe Ouça a gravação

A China marca mais um ponto no cenário internacional, desta vez com um Nobel de Literatura, para o escritor Mo Yan, 57 anos. Sua obra, marcada pelo cenário rural e com pitadas de realismo mágico, já foi traduzida em várias línguas, mas é ainda inédita no Brasil. Márcia Schmaltz, professora do mestrado de tradução na Universidade de Macau, comenta a obra de Mo Yan.

Publicado em Livros, 图书 | Deixe um comentário

“Confúcio e o menino sem nome”: intertextualidade e adaptação1

Encontro de Xiang Tuo e Confúcio

Encontro de Xiang Tuo e Confúcio

Histórias infantis é um gênero da Literatura, escrita por uma imaginação fértil e fantasiosa para refletir sobre a vida e com finalidade educacional para as crianças.
(verbete “Histórias infantis”, na enciclopédia chinesa Cihai).

Introdução

Ao percorrer bibliotecas e livrarias para a seleção de contos infantojuvenis representativos da China para a tradução em língua portuguesa, observei que, entre os títulos disponíveis, há um grande número que privilegia mais as narrativas com finalidade educativa do que aquelas libertadoras da imaginação da criança, o que faz jus à epígrafe. O termo “educativo” é aplicado a um texto que visa a educação moral das crianças, a seu regramento social. Essa situação pode ser justificada quando se relaciona a literatura infantojuvenil com uma cultura alicerçada em um rígido código moral que, mesmo com todas as transformações ocorridas no último século, ainda não conferiu espaço à criança (SCHMALTZ 2008).

A fim de contextualizar a tradução do conto “Confúcio e o menino sem nome” (SCHMALTZ; CAPPARELLI, 2010), este artigo inicia por descrever algumas bases da cultura tradicional chinesa, particularmente sobre o confucianismo, naquilo que pode ser interrelacionado ao sistema cultural, ao papel da criança e da literatura. Na segunda seção, é apresentado o trabalho de pesquisa bibliográfica em busca do “original”. Aqui os conceitos da prosa ficcional e da intertextualidade são discutidos a partir da constatação da existência de paratextos envolvidos no texto de partida. Na terceira seção, são expostas as estratégias levadas a cabo para a tradução e para a adaptação do conto e, ao final, são apresentadas algumas conclusões.

1. A cultura tradicional chinesa, o papel da criança e o sistema literário

A cultura tradicional chinesa é o resultado da sincretização de escolas de pensamento surgidas ao longo dos séculos V-III a.C., conhecidos como o período das Cem Escolas [诸子百家 zhuzi baijia], que envidavam esforços no convencimento dos então príncipes feudais para adotarem os seus preceitos de governo. Importante notar, porém, é que todas as doutrinas conferiam valor à sabedoria e o que as distinguiam era os meios para obter o conhecimento. Duas doutrinas se destacam, conforme Granet (1997, p.21), “a que se qualifica de taoísta e a que reivindica a autoridade de Confúcio2. Todas as duas têm a ambição de constituir uma ortodoxia [...] assinalada por uma pretensão de Sabedoria simbolicamente universal e exclusiva.”

Em alguns períodos da história chinesa, os governantes e a elite adotaram a doutrina confuciana de maneira ortodoxa, que “se utilizava das vozes racionais e sensatas de imperadores ancestrais para explanar a necessidade da honestidade, da praticidade e do respeito à hierarquia social” (ZHANG, 1989, p.85), começando desde muito cedo a construir uma barreira à imaginação e dirigindo a mente infantil a se fixar na realidade, isolando-a do selvagem primitivo, da mitologia, das lendas e da ideação. Nos Analectos (7.20) afirma-se que “Confúcio não fala do sobrenatural, de absurdos e de coisas heterodoxas”3. Muitos estudos da área da literatura infantil chinesa sugerem que esse axioma seria o responsável pela repressão à imaginação, à paixão e à ingenuidade. Tian e Guo, inclusive, sugerem que “durante longo tempo não se observou uma produção infantil genuína e caso caísse alguma semente nessa terra, dificilmente vingaria, pois não encontraria terreno para se desenvolver.” (TIAN; GUO, 2007, p.103).

Desta forma, observa-se que a literatura chinesa se desenvolveu arraigada em uma cultura pragmática e ortodoxa, cujas transformações foram impulsionadas sobre fortes influências doutrinárias confuciana. O confucianismo soube melhor preceituar uma gama mais variada de situações de interações sociais humanas em relação às outras doutrinas, bem como soube absorver o que lhe interessava das demais para permanecer como o detentor do status quo. Essa escola de pensamento creditou à educação uma importante função social e humanizadora, que cunhou pragmaticamente a integridade moral e a virtude no inconsciente coletivo chinês (GONG, 2006). Para ilustrar essa afirmação, trago as primeiras tríades de Sanzijing [三字经 Ode de três caracteres]: “A natureza humana é benévola e o meio induz para o mal. A educação permite distinguir entre o Bem e o Mal.”4 Esse poema era ensinado nos primeiros anos escolares e, além de servir ao propósito de letramento e conhecimento geral, enfatizava o ato pedagógico como estruturador da mentalidade rumo ao sentimento de humanidade, calcado em rituais de acordo com o status social (FAIRBANK; GOLDMAN, 2006, p. 74). Isto é, a imposição de uma hierarquia estratificada que codifica a relação social, em que preceitua a obediência filial (o respeito aos mais velhos pelos mais novos) como base para firmar o laço da lealdade por parte do subordinado ao governante, contra o qual ninguém pode se rebelar (FAIRBANK; GOLDMAN, 2006, p. 108). Por isso, em termos de status quo,a criança não teve lugar de deestaque nesse período, porque a concepção de filialidade tinha o mais idoso como o centro e fazia com que a sociedade considerasse a criança como imperfeita, não qualificada e alvo preferencial de culturalização. Nesse contexto, o adulto teria o direito e a responsabilidade sobre a criança, o que é irrefutável dentro do axioma confuciano.

Para atingir o objetivo da ação civilizadora (GRANET, 1997), desde muito cedo a criança era moldada para se adequar às normas sociais. Eram instruídas para a ordem e para a obediência incondicional, encurtando-lhes o período infantil. Essa exigência de amadurecimento precoce da criança fez com que o inconsciente coletivo ignorasse a personalidade individual e as necessidades especiais das crianças, não produzindo uma literatura voltada a essa faixa etária. As primeiras obras infantis institucionais anteriores a época moderna como Sanzijing [三字经Ode de três caracteres], Baijiaxing [百家姓 Todos os sobrenomes], Qianziwen [千字文 O livro dos mil caracteres], Youxue Qionglin [幼学琼林 Conhecimentos elementares para crianças], Ershisi Xiao [二十四孝图 Os Vinte e quatro filhos virtuosos], entre outros, são livros em versos para facilitar a memorização, não voltados apenas para o letramento, mas também para a formação da consciência e do caráter moral.

Contudo não se pode ignorar a influência do daoísmo5 no desenvolvimento da literatura chinesa (ZHOU, 1973). Se, por um lado, a práxis confuciana é professada por histórias de condutas exemplares e ancestrais, por outro lado, a filosofia daoísta contrapunha-se a ela ao proferir “não se deve utilizar fragmentos de discursos insignificantes para obter prestígio”6 (ZHUANG, 2008, p. 146). Dessa antítese surgiu, assim, o termo xiaoshuo [小说discurso menor, bagatela], que corresponde à narrativa ficcional, interpretada como um gênero “menor” pela inteligentsia, pois argumentava “não fazer parte nem das Três Doutrinas e nem das Dez Escolas filosóficas”7, devido aos contadores de histórias registrarem tudo o que escutavam da boca do povo pelas ruas. Porém, apesar da ortodoxia confuciana hegemônica marginalizar a literatura oral e popular, sabe-se que essas narrativas eram contadas pelos mais velhos às crianças sob a sombra da sófora, no verão, ou ao redor do fogão, no inverno. Isto foi uma espécie de germe para a imaginação poética, o que está registrado nas biografias de escritores chineses clássicos, como Gan Bao (?286-336), Su Dongpo (1037-1101), Pu Songlin (1640-1715), entre outros.

Para finalizar esta seção, é interessante notar que, até os anos vinte do século XX, não houve uma produção literária voltada ao público infantojuvenil, em estrito senso, na China. Porém, percebe-se, ao percorrer a história da literatura chinesa, a incubação desse gênero literário nos momentos de contação de histórias. Conforme Jiang e Han (1998) e Chen (1993), a narrativa ficcional oral é datada desde antes do período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.), registrada nas dinastias Han (206 a.C-220), evolui durante as Seis dinastias (220-581) e atinge o apogeu na dinastia Tang (618-907). Devido à adoção do confucianismo como doutrina filosófica de governo, a narrativa ficcional e popular enfraquece nas dinastias Song (960-1279) até meados da dinastia Ming (1368-1644), quando renasce a partir da instabilidade política.

2. Intertextualidade e dialogismo em “Confúcio e o menino sem nome”

Quando Sérgio Capparelli, escritor de literatura infantojuvenil, e eu encontramo-nos no metrô em Pequim, ele comentou que estava maravilhado pelas fábulas chinesas a que teve acesso a partir de edições inglesas, francesas e espanholas. Contudo, sentia-se frustrado por não ter acesso aos originais chineses. Propôs então que traduzíssemos em conjunto e que eu buscasse os “originais” de todas essas fábulas. Assim nasceu nossa parceria, que resultou na tradução de mais de duas centenas de estórias, que transcenderam ao gênero fabular.

A pesquisa pelos “originais”, acredito, constitui-se em atitude necessária para o leitor-escritor-tradutor confrontar ou considerar diferentes textos ou aspectos que permeiam a gênese do texto, como a garantia para a sua recriação (LIMA; ORGADO, 2011, p. 115; cf. SCHMALTZ, 2011), especialmente num sistema milenar como a literatura clássica chinesa. A investigação envolve certa complexidade e cuidado, pois as obras clássicas foram inicialmente transmitidas por via oral, o que leva à questão de se não teriam os compiladores “inventado” algo em matéria de ideias ou de “teorias” a partir do século I a.C.8, e isso deve ser considerado quando da busca do texto de partida pelo tradutor. Dessa forma, deve o tradutor dominar os instrumentos disponíveis para a pesquisa de fontes confiáveis, conhecer o chinês clássico e saber interpretar textos e glosas produzidas por diferentes escolas de pensamento, em diversos períodos. Enquanto que, contemporaneamente, há de se considerar, ainda, as divergências entre os estudiosos quanto às interpretações das obras, muitas vezes relacionadas à carência de informações históricas fidedignas.

Ainda há de se considerar que os textos em um sistema literário milenar, como o chinês, sejam construídos pela intertextualidade, num sentido lato, “como um recorte significativo feito no processo ininterrupto de semiose cultural, isto é, na ampla rede de significações dos bens culturais” (WALTY, 2010), isto é: pela paratextualidade, a arquitextualidade e a metatextualidade. Para o tradutor, como leitor, o processo de reconstituição do texto num dado sistema promove uma interpretação mais geral em relação ao texto em mãos, em que considera a sua relação com o tempo e o local de produção (BASSNETT-MCGUIRE, 1980/2005, p. 104).

A partir das considerações acima, observa-se que “Confúcio e o menino sem nome” é um texto ilustrativo da intertextualidade na literatura chinesa. Esta lenda popular é um registro escrito da literatura oral (WANG, 2010). O enredo envolve o encontro de Confúcio e Xiang Tuo, um menino de sete anos, que se desenvolve através do diálogo em estilo socrático entre os personagens. O conto pode remeter o leitor experiente à associação com o tipo de discurso filosófico Ocidental caracterizado pela maiêutica, que leva ou induz uma pessoa, por seu próprio raciocínio, ao conhecimento ou à solução da dúvida e, pela ironia, conduz o seu interlocutor a entrar em contradição, tentando fazê-lo chegar à conclusão de que o seu conhecimento é limitado. Ao final desse conto, devido ao questionamento pertinente do menino em relação às suas respostas, Confúcio, o sábio, reconhece-o como um prodígio e como mestre.

Essa história foi inicialmente selecionada através da tradução francesa “Le jeune maître de Confucius” em Contes chinois, le bouvier et la tisserande de Lisa Bresner (2000). Para a pesquisa do texto de partida recorri à biblioteca digital Si ku Quan Shu [四库全书 Biblioteca completa de clássicos9]. Ali encontrei 154 colocações em 95 livros dedicadas à Xiang Tuo. Ao refinar a busca por antiguidade, apesar de não ter localizado o texto de partida, identifiquei quatro livros em que é citado o menino numa narrativa original; isto é, do total das 154 colocações, apenas quatro são pretensamente originais quanto ao encontro de Confúcio e Xiang Tuo, enquanto as restantes são citações, alusões literárias, discursos ou derivações dessas.

Confúcio e Xiang Tuo Gravura em nanquim

Confúcio e Xiang Tuo Gravura em nanquim

A alusão ao encontro de Confúcio com Xiang Tuo mais conhecida encontra-se numa quadra de Sanzijing [三字经 Ode dos três caracteres] do literato confuciano, Wang Yinglin (1223-1296). Como comentado na primeira seção, a obra trata de condutas exemplares e é introduzida como bibliografia de apoio ao letramento. O texto é organizado em quadras trissilábicas para facilitar a memorização. A quadra relacionada ao conto versa sobre o amor pelo saber: “na Antiguidade, Confúcio era muito estudioso, inclusive aprendeu com Xiang Tuo”10. As glosas explicam que Confúcio, mesmo com toda a sua sabedoria, nunca hesitava quando se tratava de adquirir conhecimento e procurou Xiang Tuo, menino prodígio de apenas sete anos, para aprender a tocar harpa.

Contudo, a quadra de Sanzijing não é a referência mais antiga do encontro e remete a fatos narrados em outros textos, como em um dos episódios da quinta estratégia do reino Qin em Zhan Guo Ce [战国策 Estratégias dos Reinos Combatentes]11. Gan Luo, o menino prodígio do reino Qin, queria ser indicado como conselheiro em uma missão diplomática e tomou Xiang Tuo como argumento de autoridade: “Confúcio reconheceu Xiang Tuo de apenas sete anos como mestre, enquanto eu já tenho doze anos.”12. Observe-se que o duque, não tendo o que contestar, designou-o para a missão. Pela estrutura discursiva do enunciado, tudo leva a crer que a figura de Xiang Tuo já era conhecida pelos leitores, já que não há glosas ou comentários sobre o menino neste texto.

No sétimo episódio do capítulo Tangwen [汤问 Perguntas de Yintang] em Liezi13, um dos clássicos daoístas datado do século III a.C., é narrado o encontro de Confúcio com dois meninos que discutem sobre quando o sol está mais próximo da Terra. O Sábio, por não saber responder, é questionado pelos meninos com “o quanto é que você sabe?”14. Esta narrativa pode ser interpretada como uma crítica daoísta ao pretenso conhecimento onisciente de Confúcio.

Outra referência encontra-se no excerto 21 do capítulo 19 “Cultivar-se” de Huainan zi15[淮南子 O príncipe de Huainan]. O comentário do daoísta Liu An16 (179 a.C. – 122 a.C.) situa-se no capítulo em que dita uma espécie de receituário daoísta para se atingir a virtude, através da autocultivação. O excerto 21 é uma crítica àqueles que veneram o passado e desprezam o presente. Uma série de exemplos são elencados, sendo o último o encontro de Confúcio com Xiang Tuo, em que o Sábio o reconhece como mestre. O que conduz ao leitor a uma possível interpretação do termo “ancião” como contradição da práxis dos seguidores de Confúcio. Vide o excerto abaixo:

Confúcio reconheceu Xiang Tuo de sete anos como seu mestre, porque havia razão naquilo que o menino dizia. Contudo, geralmente não é assim. Ao dirigir a palavra a um ancião, uma criança apenas pode esquivar-se de cajadadas, como poderá ela argumentar?17

Em coletâneas de lendas e histórias do folclore chinês, Xiang Tuo é conhecido como um dos quatro meninos prodígios do período clássico chinês. Contudo, existem divergências entre os estudiosos quanto à veracidade do encontro deste com Confúcio. Conforme o Registro da família Xiang de Runan, Xiang Tuo é descendente da família de agricultores Xiang de Qu Fu, província de Shandong (sendo conterrâneo de Confúcio) e nasceu em 494 a.C. Reza a lenda que o menino prodígio tornou-se afamado depois do célebre encontro com Confúcio, em que foi reconhecido como “mestre do Sábio”. Entretanto, seu renome e inteligência levaram-no à desgraça. Depois desse encontro, dizem que todos os reinos queriam-no como conselheiro. Xiang Tuo recusou a todos os convites, devido à lealdade ao seu reino. Essa decisão levou a sua morte prematura, com apenas doze anos. Conforme a lenda, depois de se esquivar aos convites, os reis vizinhos ordenaram que sofresse pena capital. Ao saber disso, o menino se escondeu numa caverna no fundo de uma montanha. Entretanto, sua mãe foi capturada e seu coração foi extraído por não delatar o paradeiro de seu filho. Ao saber do infortúnio, Xiang Tuo retornou à aldeia e ressuscitou a mãe ao colocar no lugar um coração de veado. Os soldados ao descobrirem a mulher com vida, capturaram-na novamente e torturaram-na, retirando sua vesícula biliar, símbolo da coragem para a tradicional medicina chinesa. Outra vez, Xiang Tuo voltou para salvar sua mãe; dessa vez, ao lhe repor uma vesícula de coelho, animal considerado covarde. Naquele momento, Xiang Tuo foi capturado e os soldados não conseguiram levar a execução a cabo. Assim, esses intimidaram a mãe, que por ter uma coragem como a de um coelho, entregou o ponto fraco do filho: só podia ser morto com a palha de colmo. Logo os soldados apressaram-se a colher um tanto da gramínea e cortaram a sua cabeça. Dessa forma, constituiu-se a lenda de Xiang Tuo na região de Shandong, em que há templos em sua homenagem. Litogravuras encontradas nessa região retratam um menino com um carrinho na mão entre Confúcio e Laozi (?571 a.C.-?471 a.C.) em um lendário encontro. Muitos o identificam como Xiang Tuo (Figura 1).

Litogravura do encontro de Confúcio e Laozi

Litogravura do encontro de Confúcio e Laozi

Fonte: Zhongguo huaxiangshi quanji (2000)

Finalmente, encontramos o texto de partida em Dongyuan Zazi Daquan [东园杂字大全 Enciclopédia Dongyuan] no catálogo online da Biblioteca Nacional da França. O manual enciclopédico datado de 1804, publicado pela Academia de Letras de Guangzhou, compilou o texto anônimo acompanhado por uma ilustração de Confúcio em uma liteira, empurrado por um de seus discípulos. Um menino faz-lhe uma vênia e outros dois meninos brincam em frente de uma muralha de brinquedo (figura 2).

fac-simile do texto de partida Xiao'er lun

Figura 2: fac-simile do texto de partida Xiao’er lun
Fonte: Biblioteca Nacional da França

Figura 2: fac-símile do texto de partida (extrato)

Fonte: Biblioteca Nacional da França.

A análise da bibliografia sugere a “sabedoria” como um tema transversal a todas as narrativas, em que Xiang Tuo (ou meninos) pode ser tomado como metonímia de “sabedoria”. Quanto à função e ao sentido que esses textos tecem entre si, os dados corroboram a conclusão que a narrativa ficcional era utilizada como um recurso retórico para o fortalecimento da argumentação pelas escolas de pensamento, de maneira implícita (SCHMALTZ, 2007). Como comenta Granet, essa é uma das características da retórica das escolas de pensamento chinês por “justapor os temas retirados das mais divergentes concepções, ou em empregar os raciocínios que permitem influir sobre o outro, sem que o próprio sujeito lhes aceite a legitimidade.” (1997, p.20).

O comentário do sinólogo francês é confirmado pelos paratextos encontrados nesta pesquisa. Os eruditos confucianos ortodoxos a partir da dinastia Song (960-1127) desconstituíram Xiang Tuo, alegando insuficiência de evidências documentais nos clássicos [confucianos] para a comprovação dos fatos citados em outras obras [daoístas], apesar de alguns comentaristas ressalvarem que “se foi assim registrado pelos homens da dinastia Han, deve ter embasamento” (FANG, apud WANG 2010, p.10). Assim, para os comentaristas confucianos, o diálogo travado entre Confúcio e o menino não passaria de mera conjectura de literatos de outras doutrinas. Contudo, é de se pensar que a negação desse conto estaria relacionada à afirmação do confucianismo, em um momento em que este foi tomada como doutrina oficial, e meninos que desafiam o status quo não seriam interessantes ao sistema. Note-se também que o perfil autodidata e crítico do menino também era desautorizado pelos preceitos confucianos, por poder levar ao questionamento da ordem e à exaltação do conhecimento inato, em prejuízo do adquirido pela diligência, o que é preconizado pela doutrina. De qualquer forma, os paratextos, as lendas, os templos e a litogravura são evidências que conferem certa importância ao Xiang Tuo em um determinado período histórico.

3. Tradução e adaptação de “Confúcio e o menino sem nome”

Para que o texto se adequasse ao perfil do leitor infantojuvenil brasileiro, adotamos uma tradução criativa a partir do texto de partida, considerando as diferenças do par de línguas e os paratextos encontrados. Acreditamos que a linguagem sintética do texto chinês clássico e a ausência do monólogo interior dos protagonistas e carente de descrição, seria distante da tradição de recepção do público alvo contemporâneo, como pode ser confrontado na tradução interlinear e a tradução livre, abaixo (Fig.3):

Transliteração e glosa parcial de Confúcio e o menino sem nome

Figura 3: Transliteração e glosa parcial de Confúcio e o menino sem nome

O que chamei acima de tradução criativa pode ser interpretado como “adaptação”, por esta geralmente possuir omissões, reescritas, adições; contudo o texto pode ainda ser reconhecido como original do autor, já que se preservam as instâncias de enunciação, conforme sugere Milton (2009).

Ao considerarmos que Confúcio não faz parte da memória coletiva do sistema de recepção, grande parte da adaptação encontra-se na introdução do conto. Nela descrevemos a erudição e a diligência de Confúcio, com a introdução da voz de um narrador onisciente: “Confúcio estava muito cansado de ler e decidiu descansar um pouco. Mas o que fazer? Mesmo quando descansava, ele queria fazer alguma coisa.” (SCHMALTZ; CAPPARELLI, 2010:11). Para demonstrar o perfil professoral de Confúcio, preferimos permear o texto com o diálogo interno do Mestre, como: “achando que o som de sua voz serviria também para alertar o menino, pois, afinal de contas, o meio da estrada não é o melhor lugar para se brincar.” (Idem, p.12). Para redigir a reação de Confúcio em relação às respostas do menino, fundimos o axioma de obediência filial “Que falta de respeito com os mais velhos” (Ibid.) à adaptação do excerto de O príncipe de Huainan “o menino tinha dado uma boa resposta” (Ibid.), para fazer jus à imagem de sábio ao leitor infantojuvenil; porém, no nosso texto, recriamo-lo com uma personalidade mais afável, seja pelo tom mais coloquial “(…) agora vai se ver comigo” (Ibid.) ou “Você não perde uma!” (Idem, p. 14), seja pela descrição realizada pelo narrador onisciente, com a finalidade de contextualizar o estado emocional das personagens: “Confúcio também gostava de brincar, só que com palavras e ideias” (Ibid.), “Confúcio engoliu em seco” (Idem, p. 13), “Ele [menino] tinha a resposta na ponta da língua”, “O menino riu novamente, como se achasse a pergunta muito fácil” (Idem, p. 14), “Confúcio pareceu atordoado” (Idem, p. 15), “Confúcio cada vez mais desorientado, calou-se, enquanto o menino fazia as últimas perguntas”, “Confúcio ficou nervoso” e “Confúcio pareceu cansado e suspirou” (Idem, p. 17). Esses recursos também conferiram ritmo ao fluxo textual.

Com base nos paratextos elencados na seção anterior, em dois momentos, tomou-se a liberdade poética através da voz do menino. Criticamos a máxima confuciana de conformismo em “se todos os escravos fossem libertados, por que continuariam a lhe [Confúcio] pedir conselhos?” (Idem, p. 15). e a subserviência da mulher ao homem em “O senhor me desculpe, mas só um louco diria que uma mulher está mais perto do marido do que do filho” (Ibid.).

Quanto ao título, preferimos “Confúcio e o menino sem nome” a uma tradução direta de outros títulos de textos encontrados, como Xiang Tuo san nan Kongzi [项橐三难孔子 Xiang Tuo desafia Confúcio por três vezes], Kongzi yu Xiang Tuo xiangwen shu [孔子与项橐相问书 Encontro de Confúcio e Xiang Tuo], Xiao’er lun [小儿论 Discurso de uma criança] ou até mesmo do título da tradução francesa “Le jeune maître de Confucius”. O título “Confúcio e o menino sem nome” parece estar de acordo com a tradição da tradução do gênero infantojuvenil do sistema de recepção brasileiro, ao elencar os personagens envolvidos na história (cf. Branca de Neve e os sete anões, Os três porquinhos, A Bela e a Fera, entre tantos outros). Torna-se, assim, mais atraente e interessante ao público alvo. Não adotamos o nome chinês do menino, por ser um nome desconhecido da grande audiência. Porém, essa criação foi inspirada pelo próprio argumento do impúbere ao Sábio que diz “E um menino, como eu, não tem nome” (Idem, p. 12). Sobre essa fala, acrescento que é uma adaptação de xiao haizi you ming meiyou zi [小孩子有名没有字儿。Criança tem nome, mas não tem cognome], preferimos simplifica-la, por envolver conceitos distantes do conhecimento médio de nosso leitor-alvo. Pois, na Antiguidade chinesa, as pessoas possuíam vários nomes, entre eles, um de batismo e outro que escolhiam quando completavam 20 anos de idade. Assim, evitamos usar nota de rodapé, pelo tipo de público leitor a que se destina a tradução.
Conclusão

Neste artigo, descrevi o percurso para a preparação da tradução e adaptação de 50 fábulas da China fabulosa e Contos sobrenaturais chineses. Mostrei resumidamente a pesquisa realizada quanto à cultura tradicional chinesa e a respectiva relação de doutrinas ortodoxas quanto ao papel da criança e ao desenvolvimento da literatura chinesa. O confucianismo é um dos alicerces desse sistema cultural e enfatiza o respeito ao rito, à ação civilizadora e à ordem. O discurso de cunho objetivo, realista e prático dessa doutrina foi levantada como uma das possíveis razões para a carência de obras com caráter lúdico na Antiguidade chinesa.

A tradução do conto “Confúcio e o menino sem nome” foi adaptada a uma linguagem lúdica e acessível, característica do gênero da literatura infantojuvenil, para despertar o interesse. Tendo como base paratextos relacionados ao encontro de Confúcio e Xiang Tuo.

 Notas

1. Texto originalmente apresentado em uma palestra do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC em 08 de agosto de 2012. Agradeço a Carlos Alberto Gohn e Paulo Francisco Coutinho pela leitura crítica do manuscrito.

2. Confúcio (551-479 a.C.) é a transliteração românica de Kong-fu-zi [孔夫子Mestre Kong].

3. [子不語:怪、力、亂、神。Zǐ bù yŭ: guài, lì, luàn, shén.] Os ideogramas são escritos em chinês simplificado e as transliterações fonéticas estão em pinyin. Todas as traduções são de responsabilidade da autora. As acepções ou traduções diretas do chinês para o português estão sinalizadas entre parênteses retangulares, enquanto as traduções livres estão entre aspas.

4. [人之初,性本善。性相近,习相远。rén zhī chū, xìng běn shàn. xìng xiàng jìn, xí xiàng yuǎn.]

5. Popularmente grafado como tao e taoísmo. Trata-se de um axioma que se refere ao “Caminho”, ao “Tudo / Nada”. Por não se relacionar diretamente ao tema deste artigo, não aprofundarei o tema aqui (cf. GRANET, 1997).

6. [饰小说以干县令。shì xiǎoshuō yǐ gàn xiàn lìng.]

7. [诸子十家,其可观者九家而已。Zhūzǐ shí jiā, qí kě guān zhě jiǔjiā ér yǐ.] Em Anais dos Han (206 a.C.- 24), os príncipes feudais do período foram divididos em dez Escolas de acordo com a sua doutrina filosófica: Confucionista, Daoista, Legalista, Moísta, Lógica, Yin-Yang, Estrategista, Eclética, Agronômica e Novelista.

8. Não entrarei em maiores detalhes nessa discussão, por ela fugir do escopo dos propósitos deste artigo, contudo remeto a leitura de GRANET (1997).

9. Coleção de livros reunidos no reinado do imperador Qianlong (1736-1795) da dinastia Qing (1644-1911).

10. [昔仲尼, 师项橐。古圣贤,尚勤学。 xī Zhòngní, shī Xiàng Tuó. Gǔ shèngxián, shàng qínxué.]

11. Editado por Liu Xiang (77-6 a.C.). O livro de cunho histórico, registra em prosa os conselhos de guerra conferidos aos reis entre 475 a.C.-221 a.C., antes da unificação imperial da China.

12. [甘罗曰:“夫项櫜生七岁而为孔子师,今臣生十二岁于兹矣!君其试臣,奚以遽言叱也?” Gān Luó yuē: “fū Xiàng Tuó shēng qī suì ér wéi Kǒngzǐ shī, jīn chén shēng shíèr suì yú zī yǐ! jūn qí shì chén, xī yǐ jù yán chì yě?]

13. Espécie de breviário daoísta destinado a iniciados. Compõe-se predominante de historietas simbólicas, apólogos e discussões (GRANET, 1997, p. 304). Quanto ao autor Liezi (século III a.C.), não há comprovação de sua existência e pouco se sabe sobre a sua vida.

14. [ “孰为汝多知乎?” “shú wéi rǔ duō zhī hū?”]

15. Espécie de tratado e enciclopédia daoísta, em que se discutem os mais diversos saberes em vinte capítulos, como macrocosmo, microcosmo, atitude civilizatória, longevidade, entre outros, orientado para o sincretismo (LV, 1994).

16. Príncipe da família dos Han, que foi rei de Huainan de 164 a 122 a.C. Liu An figurou como mecenas e bibliófilo.

17. [夫项讬七岁为孔子师,孔子有以听其言也。以年之少,为闾丈人说,救敲不给,何道之能明也?Fū Xiàng Tuō qī suì wéi Kǒngzǐ shī, Kǒngzǐ yǒu yǐ tīng qí yán yě. Yǐ nián zhī shǎo, wéi lǘ zhàng rén shuō, jiù qiāo bù gěi, hé dào zhī néng míng yě?]

Bibliografia

BAN, Gu. Han Shu [Anais de Han]. Disponível em: http://ctext.org/han-shu/ens.

BASSNET-MCGUIRE, Susan. Estudos de Tradução. Tradução de Sônia T. Gehring, Letícia V. Abreu e Paula A. R. Antinolfi. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005.

BRESNER, Lisa. Contes Chinois, Le Bouvier et la Tisserande. Paris: L’école des Loisirs, 2000.

CAPPARELLI, Sérgio; SCHMALTZ, Márcia. 50 Fábulas da China Fabulosa. Porto Alegre: LP&M, 2007.

Cihai. Xangai: Shanghai Cishu, 1999.

Dongyuan Zazi [Enciclopédia Dongyuan]. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b9006527j/f8.image.langEN

FAIRBANK, John; GOLDMAN, Merle. China: uma nova história. Tradução de Marisa Motta. Porto Alegre: LP&M, 2006.

GONG, Pengcheng. Zhongguo Chuantong Wenhua Shiwu Jiang [Quinze tópicos sobre a cultura tradicional chinesa]. Pequim: Peking University Press, 2006.

GRANET, Marcel. O pensamento chinês. Tradução de César Benjamin. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

JIANG, Feng; HAN, Jin. Zhongguo Wenxue Shi [História da Literatura Infantil da China]. Hefei: Anhui Jiaoyu Chubanshe, 1998.

LIE, Yukou. Liezi. Disponível em: http://ctext.org/liezi/tang-wen/zhs.

LIMA, Ronaldo; ORGADO, Gisele T.M.R. “Interpretar e traduzir a língua dos Smurfs”, in Cadernos de literatura em tradução, 12, p. 113-124, 2011.

LIU, An. Huainan zi [O príncipe de Huainan]. Disponível em: http://ctext.org/huainanzi/xiu-wu-xun/zhs

LIU, Xiang. Zhan Guo Ce [Estratégias dos Estados Combatentes]. Disponível em: http://ctext.org/zhan-guo-ce/zhs.

LV, Kai. Huainan zi: shenxian daojia [Huainan zi: o daoísta imortal]. Taipei: Shibao wenhua, 1995.

Lunyu [Analectos]. Disponível em: http://ctext.org/analects.

MILTON, John. Translation Studies and Adaptation Studies. In: PYM, Anthony; PEREKRESTENKO, Alexander (eds.) Translation Research Projects 2. Tarragona: Intercultural Studies Group, p. 51-58, 2009.

SCHMALTZ, Márcia. “‘Os três reis’: reflexões a partir de um conto não publicado”. In: Cadernos de literatura em tradução 12, p.173-186, 2011.

______. “A literatura infantil chinesa da poesia à prosa: Uma história sem espaço à criança”. Tigre Albino 2(1), 2008. Disponível em: http://www.tigrealbino.com.br/texto.php?idtitulo=1eb7c72bdf826fe4700f977b9658e5ef&&idvolume=8019c0e24c8199c19b45b5b7170ec4e9

______. “Metáfora conceptual de tempo em fábula chinesa”. Organon 21, p. 35-52, 2007. Disponível em: http://www.umac.mo/fsh/ciela/resources/publication/Schmaltz2007.pdf

SCHMALTZ, Márcia; CAPPARELLI, Sérgio. Confúcio e o menino sem nome. In: Contos sobrenaturais chineses. Porto Alegre: L&PM, 2010. Disponível em: http://www.lpm.com.br/livros/imagens/contos_sobrenaturais_chineses.pdf

SIMA, Qian. Shiji [Anais da história]. Disponível em: http://ctext.org/shiji/kong-zi-shi-jia/zhs

TIAN, Guixiang; GUO, Bensi. “Zhang Tianyi de jiaohua qingjie” [O enredo moralizante das histórias infantis de Zhang Tianyi]. In: Qilu Xuebao, n.5, p. 103-105, 2007.

WALTY, Ivete. “Intertextualidade”, E-Dicionário de Termos Literários,coord. de Carlos Ceia. Disponível em: http://www.edtl.com.pt.

WANG, Yinglin. Sanzijing [Ode de três caracteres]. Disponível em: http://ctext.org/three-character-classic/zhs
WANG, Zijing. “Handai Qi Lu shentong” [Meninos prodígios de Qi e Lu da dinastia Han]. In Qi Lu Wenhua Yanjiu, disponível em: http://www.qlwh.com/jidi/xinshu.asp?id=612.

XU Zhigang. Lunyu Tongyi [Interpretação de Analectos]. Pequim: Renmin Wenxue Chubanshe, 2003.
ZHANG, Lei (ed.) Zhongguo Gudai Zhexue Dadian [Clássicos da filosofia antiga chinesa]. Wuhan: Editora da Universidade Politécnica de Wuhan, 1989.

ZHOU, Shuren. “Zhongguo xiaoshuo shilue” [História concisa da literatura em prosa da China]. In: Lu Xun Quanji [Obra Completa de Lu Xun]. Pequim: Renmin Chubanshe, v.9, p.147-450, 1973.

Publicado em Antropologia e cultura, Livros, Tradução | Marcado com , , | Deixe um comentário

“Os três reis”: a anatomia de um conto não publicado

Numa parceria iniciada em 2005 com a publicação de 50 Fábulas da China fabulosa (2007), Sérgio Capparelli e eu selecionamos e traduzimos vinte e seis contos maravilhosos para a coletânea do livro Contos sobrenaturais chineses (2010). O nosso projeto pretende trazer ao leitor infantojuvenil brasileiro, o que há de mais representativo das narrativas chinesas, acompanhadas por ilustrações relacionadas à arte folclórica do Império do Meio.

Este artigo compartilha algumas etapas da preparação dos originais, como a acepção chinesa sobre o gênero maravilhoso, a pesquisa da autoria e a localização do original, a importância do conto no sistema literário chinês para justificar a presença do conto “Os três reis” em Contos sobrenaturais chineses. Ao final, são apresentados a tradução e o conto original em chinês.

1 Origem e definição de “conto” e “maravilhoso” em chinês

A definição chinesa mais antiga do termo conto, xiaoshuo, é de “ditos insignificantes” (ZHUANG, 2008, p. 146), em um contexto em que defende que para se atingir o dao[1], “não se deve utilizar de fragmentos de discursos (grifo nosso) para obter o prestígio[2]”; enquanto a referência ao gênero literário maravilhoso corresponde à zhiguai, que significa “registros de eventos sobrenaturais” (ZHUANG, 2008, p. 2). Estes termos apareceram pela primeira vez no livro homônimo do filósofo Zhuangzi (369-286 a.C.) que utilizava o estilo fabular para explicar a metafísica daoísta, que influenciou as gerações de literatas posteriores.

Provavelmente devido à definição primeira dada pelo sábio, durante muito tempo, xiaoshuo foi considerado como um gênero “menor” pela elite erudita na literatura chinesa, que “não fazia parte nem das três Doutrinas e nem das nove Escolas Filosófica[3]”; pois os contadores de histórias registravam tudo o que escutavam da boca do povo pelas ruas, que não era prestigiada pela elite culta. Entretanto, através dos séculos, mesmo marginalizadas, as obras com narrativas curtas com teor sobrenatural nunca pararam de ser escritas, devido a sua grande popularidade.

Não é de se estranhar a boa aceitação do conto maravilhoso por parte do público e a respectiva marginalização pelas vertentes filosóficas tradicionais chinesas. Afinal, filósofos e contadores de histórias tinham em comum a busca por uma explicação sobre a existência e sobre os acontecimentos (sobre)naturais que o cercavam, em um período de conhecimento científico incipiente. E, enquanto as escolas de diversas doutrinas filosóficas debatiam-se em fornecer uma elucidação racional em uma linguagem rebuscada, os contadores de histórias extravasavam a sua imaginação e realizavam o desejo do inconsciente coletivo escrevendo de maneira simples e ao sabor das crenças populares sobre a existência de algo a mais entre o céu e a terra.

Zhou (1973) observa que estes escritos maravilhosos em cunho testemunhal, como se fossem registros de acontecimentos ordinários, além de seu valor artístico, também os sublevavam a um caráter justiçoso que não era possível de se alcançar no plano humano, mas “possível” em um plano sobrenatural – já que “ocorreram” num período de monarquias despóticas. Por outro lado, o mesmo autor afirma que “os chineses são místicos por natureza” (id. ib.: 183), relacionam às crenças do Yin-Yang à teoria dos Cinco Elementos, que deram origem a todas as coisas, segundo a cosmologia chinesa (FAIRBANK; MERLE, 2006), a qual foi sintetizada pela escola daoísta e, mais tarde, sincretizada pelo budismo.

A cultura tradicional chinesa está alicerçada sobre as doutrinas confuciana, daoísta e budista, sendo a primeira positiva e hegemônica em relação às outras. Isso se deve pelo fato de o confucionismo preceituar rituais ou códigos de conduta rígidos a uma gama variada de situações de interações sociais humanas em relação às outras duas doutrinas, bem como ao fato de ter sabido absorver o que lhe interessava das outras escolas. Como afirma Zhang (1989, p. 85): “Se utilizou das vozes racionais e sensatas de imperadores ancestrais para explanar a necessidade à honestidade, à praticidade e ao respeito à hierarquia social”. No versículo 21 do Livro Shu’er em Analectos de Confúcio é explicitado que: “o Mestre não falou sobre o sobrenatural, atos de violência, desordem e prodígios[4].”, e preferiu dar ênfase à integridade moral e à virtude. Ao contrário das demais doutrinas, o confucionismo é centrado na realidade, tendo como objetivo primeiro, a criação e a propagação de um código ritualístico rígido, visando a culturalização da sociedade, o que resulta numa hierarquia estratificada que codifica as relações sociais. A doutrina também preceitua a obediência filial (o respeito aos mais velhos pelos mais novos) como base para firmar o laço da lealdade por parte do subordinado ao governante, a qual ninguém pode se rebelar, e isolando ou afastando a mente do selvagem primitivo, da mitologia, das lendas e da ideação. (FAIRBANK; MERLE, 2006).

Contudo, na dinastia Han tardia (25-220), os conselheiros confucionistas movidos pela ambição política, empenharam-se em construir uma mítica para o domínio governamental. Para tanto, o ponto de partida foi uma antiga ideia de que o príncipe exerce seu poder “sob o controle do Céu e do povo[5]”. Dessa forma, o confucionismo adquiriu um novo contorno ao absorver e adaptar a visão cosmológica naturalista e a crença nos espíritos invisíveis da natureza, para legitimar o status cósmico do governante e, com isso, galgou espaço de poder. Essa nova casta de intelectuais tornou-se conhecida como confucionismo cosmológico e obteve o apoio das escolas Daoístas, dos Números e do Yin-Yang. Com a desintegração e o colapso do poder central da dinastia Han tardia, houve um período de disputa pela hegemonia até a ascensão da dinastia Jin (265-420) cuja predominância filosófica se tornou conhecida como neodaísmo, que explicaremos mais adiante, e que foi um período da profusão do gênero maravilhoso.

Tendo em conta a contextualização do gênero literário na história chinesa, sintetizei, de maneira breve, a estreita interrelação entre a filosofia, a história e a literatura. A seguir, discutirei o aspecto autoral do conto “Os três reis” para a tradução.

2 Em busca da autoria

A busca pelos “verdadeiros originais” e a respectiva autoria na literatura clássica chinesa é uma tarefa complexa, pois há várias versões em diferentes períodos, conhecido como literatura de centões, cf. GRANET (1997, p.48), que exige a pesquisa cuidadosa. Para isso, o tradutor deve conhecer o chinês clássico e saber interpretar o texto e as glosas de diversos períodos, realizadas por diferentes escolas de pensamento. Isso faz com que o tradutor tenha que compreender teorias literárias, filosofia e história, bem como recorrer à consulta aos períodicos científicos das áreas citadas acima.

No caso do conto “Os três reis”, utilizei como bibliografias de apoio básico a Breve história da prosa ficcional chinesa de Zhou (1973) e a introdução de À procura dos deuses, Sou shen ji, complementados pelos artigos de Li (2001), Zhao (2002), Huang (2009) e Cao (2009), que trazem novas evidências das pesquisas histórico-antropológicas em relação ao autor Gan Bao e a sua obra.

Num primeiro momento, julgava que a autoria de “Os três reis” seria de Gan Bao do século IV. Contudo, ao ler o seu original, fui surpreendida por não existir a introdução que é encontrada nas versões infantojuvenis chinesas conhecidas. Ao consultar Zhou (1973), descobri que há na literatura outras duas versões, sendo o início do conto da versão moderna encontrada no registro de Anais de Wu e Yue, Wu Yue chunqiu de Zhao Ye do século I, que menciona a encomenda de espadas do rei de Wu ao casal forjador Gan Jiang e Mo Xie para o fortalecimento do reino. Foi possível utilizar este registro histórico para a tradução e adaptação do conto em português, vide o original na figura 1.

O escritor da fonte básica para a tradução foi Gan Bao (286? -336), natural de Xincai, província de Henan. Ele é considerado por muitos como o pai da narrativa ficcional chinesa. De origem humilde, foi funcionário-erudito, exercendo, na maior parte do tempo, o cargo de historiador. Sob a ordem imperial, escreveu Registros de Jin, Jin ji, de vinte volumes, o qual foi elogiada pelo imperador. Ainda glosou o Livro das mutações, Yi jing ou I-Ching, entre outros clássicos antigos. A sua biografia nos Anais de Jin, Jin shu (FANG, 2004, p. 1834-1837), também registra que ele “era dedicado ao estudo do Yin Yang e dos números[6]”. Ainda registra que:

Devido ao ciúme da mãe de Gan Bao, a criada favorita do seu pai foi empurrada para dentro da cova e enterrada viva junto ao morto. Esse fato só viria a ser descoberto pelos filhos, mais de dez anos depois, quando abriram o túmulo para enterrar a mãe no jazigo da família. Encontraram a criada dormindo sobre o féretro do pai. Ao levá-la para casa, ela acordou no dia seguinte e contou que conviveu amorosamente com o patrão. Soube contar tudo o que aconteceu na família até então. Mais tarde, ela se casou e teve um filho[7] (minha tradução).

Os Anais de Jin ainda registram outro fato extraordinário na vida do historiador:

O irmão de Gan Bao havia sido dado como morto, mas acordou dias depois, dizendo que havia mantido contato com os espíritos do além. Por esses motivos, Gan Bao passou a reunir narrativas estranhas e, assim, redigiu À procura dos deuses, Soushen ji, de trinta volumes[8] (minha tradução).

O folclorista Li (2001) acredita que a razão para a escritura da obra, ao contrário do afirmado em Anais de Jin, é o sentimento de dever do historiador. O neodaoísmo, vertente filosófica predominante dos séculos III e IV, propunha unir a contemplação individual da natureza, típica do daoísmo, à ética sociopolítica do confucionismo. A pesquisa historiográfica de Li (2001) revela a discussão profícua sobre a existência do sobrenatural e traz uma nova interpretação quanto à razão de Gan Bao escrever À procura dos deuses, Sou shen ji, a partir da análise de críticas ao Tratado contra o sobrenatural, Wushen lun, de Gan Bao, escrito num período anterior ao primeiro livro citado.

Segundo os comentários historiográficos, o Tratado  revela um homem cético quanto à existência de algo além do plano físico humano. Logo, seria contraditório que Gan tivesse dado uma reviravolta radical, mesmo não sabendo como explicar o porquê do “ressuscitamento” da criada de seu pai e de seu irmão, fatos que ele presenciou. Li (2001) argumenta que na introdução de À procura dos deuses, Sou shen ji, o autor se justifica dizendo que durante o seu percurso como historiador, foi coletando lendas, narrativas fantásticas ou estranhas, ass quais acreditou ser importante registrar, pois “os acontecimentos sobrenaturais não são falácias[9]” (GAN, 1994, p.1). Ele complementa ainda que, apesar de não ter visto os fatos estranhos narrados, Sima Qian, historiador do século II a.C., também os havia registrado, mesmo não tendo comprovações. Para isso, Gan Bao argumentou que “se o historiador só registrasse o que pudesse ser comprovado, iria dificultar e muito o trabalho historiográfico. Entretanto, o governo não demitiu os oficiais historiadores e nem os literatos deixaram de estudar a História, por ter menos equívocos do que acertos[10]” (GAN, 1994, p.1). Por fim, Gan Bao coloca-se na posição de historiador que não pode se furtar a registrar essas narrativas que correm pela boca do povo, e que ficasse para posterior comprovação dos fatos pelos interessados.

Os originais de À Procura dos deuses, Sou shen ji, foram perdidos. A versão contemporânea encontra-se reunida em Registros de Taiping, Taiping Guangji (978), de maneira dispersa, e em uma edição própria com 464 contos compilados durante a dinastia Ming (1368-1644) (CHEN e WU, 2006). A obra, mais do que uma mera coleção de registros colhidos de narrativas orais e compilações de acontecimentos estranhos e de assombrações da Antiguidade até a época de Gan Bao, revela o tratamento estilístico e artístico dado a essas “matérias-primas” (Huang, 2009). Um bom exemplo é o conto “Os três reis” cuja redação é baseada no registro histórico oficial de Zhao Ye, que relata a encomenda das espadas pelo rei de Wu e a respectiva forja. Na narrativa de Gan Bao, a encomenda é feita sob as ordens do rei de Chu, rival do reino de Wu, e o autor cria um destino para a família de forjadores que não está registrado nos anais da história. Huang (2009) conclui que, em certa medida, Gan Bao também foi um precursor do gênero maravilhoso, indo ao encontro do que Zhou (1973) já afirmava nos anos vinte do século XX.

3 Relevância do conto na história da literatura chinesa

 

O recorte do debate quanto ao caráter da obra revela que essa tem sido de grande valia para a investigação na área da história, da literatura, da antropologia e até do jornalismo (ZHAO, 2002). O livro de Gan Bao, além do seu aspecto lúdico, fornece informações descritivas de cunho jornalístico, as quais relatam estranhos costumes e acontecimentos locais, com a enumeração circunstanciada de divindades, espíritos benignos ou malignos, mitos, lendas, etc. Muitas vezes causa a impressão de serem fatos verídicos. Por isso, Gan Bao se tornou ímpar na narrativa ficcional chinesa e influenciou escritores posteriores do mesmo gênero como Pu Songling (1640-1715), autor de Contos extraordinários do estúdio Liaozhai, Liaozhai zhiyi, e das passagens maravilhosas dos cânones da literatura chinesa como o Romance dos três reinos, San guo yanyi (século XIV), Todos são irmãos à beira do rio, Shuihu zhuan (século XIV), Peregrinação ao oeste, Xiyou ji (século XVI), e o Sonho do pavilhão vermelho, Hongloumeng (1784). Contemporaneamente, o escritor modernista Lu Xun (1881-1936) adaptou alguns contos de Gan Bao, inclusive “Os três reis” para a sua crítica política em Estórias recontadas, Gushi xinbian (1935/1973).

O conto “Os três reis” narra a saga de Chi à procura da vingança da morte de seu pai Gan Jiang, célebre mestre forjador, pelo tirano rei de Chu, no período da Primavera e Outono (770-476 a.C.). Esta é uma história muito popular e é apresentada ao público infantojuvenil no ensino fundamental e médio da China. O conto atrai o jovem chinês por narrar a origem das lendárias espadas Mo-Gan, que estão presentes em mangás, em contos de espadachins e jogos eletrônicos, muito populares no Extremo Oriente. Por outro lado, o conto possui um caráter peculiar ao revelar a busca da justiça contra a tirania do regime monárquico, raro na literatura chinesa. Vem a demonstrar que apesar da hegemonia política monárquica e à obediência ao governante, esse preceito só tem validade se for seguido por todos, conforme o axioma humanista de Confúcio. Por isso, já estava incluída desde o início na seleção de Contos sobrenaturais chineses (2010).

Porém, esse conto foi excluído da publicação do livro, por ter sido considerado de “conteúdo impróprio para crianças” e “que poderia vir a prejudicar a carreira do livro”, tendo em conta que “vai vender menos nas livrarias e mais como adoções de escolas e governos.”. Entretanto, o público infantil brasileiro já está habituado com contos de fadas, que retratam também situações com algum conteúdo “impróprio”, como A Branca de Neve e os sete anões, no qual a rainha-madrasta mata a princesa por vaidade e inveja. Ou, por que não citar, Hamlet, que à semelhança de Chi, busca a justiça para o seu pai assassinado pelo tio, usurpador do poder.  A carreira desses livros estão muito bem.

Essa experiência revela que as partes envolvidas são guiadas por interesses diferentes. Sob a perspectiva editorial, o conto tinha que ser excluído para não prejudicar as vendas, enquanto da perspectiva acadêmica, a presença do conto seria relevante para o aprofundamento do conhecimento brasileiro quanto à literatura chinesa. A solução do conflito de interesses entre editora e tradutor exige do último muita paciência e mediação. Muitas vezes, o tradutor como a parte mais frágil da cadeia de produção tem que saber ceder para que não atrase a publicação do livro.

Tradução

Os três reis

Gan Bao

Conta-se que na China antiga, existiu um par de espadas, de nome Mo-Gan, capaz de cortar tanto o aço como papel e que mais tarde seria objeto de desejo de todos os reis para a unificação do reino. Quem e como forjou as espadas lendárias e o que o destino os reservou, é o que irá ser contado ao leitor.

Na fronteira entre os reinos de Wu e Chu, vivia o casal Gan Jiang e Mo Xie que se dedicava à arte da forja de espadas. Um dia o rei de Chu convocou Gan Jiang a sua presença para lhe encomendar duas espadas.

O monarca entregou-lhe um pedaço de ferro muito especial, gerado pela rainha, depois de ter se abraçado a um pilar de ferro para se refrescar. Após analisar a peça, Gan Jiang opinou que apesar da preciosidade do material, não era em quantidade suficiente para a produção de duas espadas. O rei de Chu então tirou de dentro da manga de sua cabraia dois metais negros de tamanho um pouco maior do que favas, que tinham sido retirados das entranhas de criaturas estranhas que se alimentavam de metais, encontradas na guarnição de armas do reino de Wu. E, observou que, certamente, com esses metais raros, Gan Jiang daria conta de produzir espadas que cortariam o aço como papel e que não teria nenhuma espada mais afiada do que elas no mundo.

Gan Jiang ao chegar à casa, tratou imediatamente de erguer uma fornalha maior e construir um fole mais potente para que atingisse a temperatura adequada da fundição. Ainda coletou mais minérios para ser adicionado aos metais entregues pelo rei de Chu. Por fim, consultou o oráculo e acendeu o forno na hora em que o sol e a lua estavam juntos no céu. O casal ficou em vigília dia e noite ao lado da fornalha durante três meses, e, por mais que elevassem a temperatura do forno, não havia jeito dos minérios derreterem. Gan Jiang, surpreso, perguntou:

– O que está acontecendo?

Mo Xie pensou por uns instantes e respondeu:

– Lembro que o mestre disse uma vez que para acontecer as transformações das coisas sagradas, é necessário o sacrifício humano; assim, precisamos colocar parte de nós dentro da fornalha para que o metal se derreta.

Ao acabar de falar, já cortava um pedaço de seus cabelos e de suas unhas, jogando-os em direção às chamas, enquanto Gan Jiang rasgava a ponta do dedo, e pingou gostas de seu sangue no fogo. Imediatamente o metal se fundiu. Para manter o fogo da fornalha na temperatura adequada, o casal mobilizou trezentas crianças para manejar o fole e carregar o carvão.

Passaram-se três anos e o rei de Chu estava furioso porque não havia notícias da suas espadas ficarem prontas. Pensava até em condenar os dois forjadores à morte.

Mo Xie estava quase para dar à luz, quando o marido terminou de fazer as duas espadas. Uma Yang, de essência masculina, ele a batizou com o seu sobrenome Gan e a outra Yin, feminina, ele batizou com o sobrenome de sua mulher Mo. Depois falou pesaroso à mulher:

– Levei três anos para forjar a espada do rei de Chu, e ele deve estar furioso comigo porque demorei muito. Acho que não vou voltar dessa viagem à capital. Tenho certeza, ele vai me matar. Por isso, não vou lhe entregar a outra espada. Se você tiver um menino, diga a ele que vá em direção sul da montanha e procure uma pedra debaixo de um frondoso pinheiro. Embaixo dessa pedra ele encontrará a espada.

Gan Jiang despediu-se e partiu com a espada para entregá-la ao rei de Chu. O monarca estava realmente muito indignado e mandou um especialista examinar a espada, que sentenciou:

– Foi forjada não uma espada, mas duas, e Gan Jiang trouxe apenas uma delas.

Ao ouvir a avaliação do especialista, o rei de Chu ficou ainda mais furioso e mandou executar Gan Jiang por causa da sua audácia.

* * * *

Mo Xie deu à luz um menino, que recebeu o nome de Chi. Quando ele cresceu, perguntou à mãe sobre o paradeiro de seu pai. Mo Xie então respondeu:

– O seu pai era um exímio forjador de espadas e recebeu uma encomenda do rei de Chu. Levou três anos para concluir a taref ae, ao entregá-la, foi morto pelo monarca. Antes de sair de casa, porém, pediu para eu lhe dizer, quando crescesse,que fosse à direção da montanha sul e procurasse por uma pedra debaixo de um frondoso pinheiro, onde ele escondeu uma espada para você.

Ouvindo isso, ofilhopartiuimediatamentenadireçãosul,masnãoavistou nenhumamontanha. Noentanto, percebeu as raízesdeumpinheiroemvoltade umapedra. Decidiucortaraárvoree encontrou aespada.Chipensavadiaenoiteemcomopoderiamataroreide Chuparavingaramortedopai.

Uma noite, o rei de Chu sonhou com um rapaz com sobrancelhas muito afastadas que lhe prometia vingança. O rei de Chu lançou um édito com um retrato falado do menino, prometendo recompensar com mil moedas de ouro quem o localizasse. Chi, ao saber da ordem de sua captura, fugiu para o alto da montanha. Enquanto caminhava, lamentava seu destino.Um cavaleiro, ao encontrá-lo, perguntou:

– Porque um rapaz tão jovem chora tão triste assim?

– Eu sou o filho de Gan Jiang e Mo Xie. O rei de Chu matou o meu pai, e eu quero me vingar! – respondeu Chi, choroso.

O cavaleiro, depois de ouvi-lo, comentou:

– Ouvi dizer que o rei de Chu ofereceu uma recompensa de mil moedas pela sua cabeça. Me dê a sua cabeça e a espada,que eu vingo a morte de seu pai.

Emocionado, o rapaz disse:

– Ótimo.

E logo cortou a cabeça e entregou-a junto com a espada. O corpo do rapaz ficou rígido diante do cavaleiro, que disse:

– Prometo não decepcionar você.

Só nesse momento o corpo de Chi desabou no chão.

O cavaleiro foi ao encontro do rei de Chu munido da cabeça e da espada. O monarca ficou muito contente e aliviado. O cavaleiro advertiu o rei:

– Essa é a cabeça de um rapaz corajoso. É preciso cozinhá-la para que ele morra realmente.

O rei de Chu seguiu aquela instrução. A cabeça do rapaz ficou cozinhando em água quente por três dias e três noites e nada de desmanchar. Nela, os olhos arregalados de Chi olhavam com ódio o rei de Chu.

O cavaleiro comentou:

– Não vejo jeito de cozinhar a cabeça desse rapaz. Quem sabe vossa majestade chega perto da fervura? Talvez assim ela se desmanche.

O rei de Chu aproximou-se do tacho onde estava sendo cozida a cabeça, e o cavaleiro,com a espada, decapitou o monarca. A cabeça do rei caiu dentro do tacho e foi atacada pela cabeça de Chi. Contudo, o rei de Chu era bom de luta, e Chi não conseguia vencê-lo sozinho. O cavaleiro então ergueu a espada e cortou a própria cabeça, que caiu dentro do tacho e ajudou a cabeça de Chi na luta contra a cabeça do rei de Chu.

Algum tempo depois, as três cabeças desmancharam-se, e era impossível saber de quem era cada uma. Para solucionar o problema, o cerimonial do palácio dividiu o caldo em três partes iguais, que foram levadas a três túmulos. O lugar chama-se Tumba dos Três Reis, e fica no distrito de Yichun, em Runan, província de Henan.


[1] Axioma daoísta, refere-se ao Caminho, o Tudo ou o Nada – definições muito genéricas e imprecisas em relação ao conceito filosófico.  Por não se relacionar diretamente ao tema deste artigo,  não aprofundarei aqui.

[2] [饰小说以干县令]

[3] As três doutrinas são a Confuciana, a Budista e a Daoísta. Os Anais dos Han (206 a.C- 24) divide os príncipes feudais em dez escolas filosóficas: Confucionista, Daoísta, Legalista, Moísta, Lógica, Yin-Yang, Estrategista, Eclética, Agronômica e Contista; e complementa: “Dentre as dez escolas que se dividem os príncipes e eruditos, só se pode considerar nove; pois, os Contadores de histórias são como ervas daninhas, que perambulam e conversam pelas ruas, registrando tudo aquilo que escutam da ralé pelas vielas (…) Não podem ser considerados como cavalheiros” .

[4] [子不语怪,力,乱,神。]

[5] [天感应论]。

[6] [性好阴阳术数]. Relacionado às Doutrinas Divinatórias, dos Astrônomos e dos Cinco Elementos.

[7] [宝父先有所宠侍婢,母甚妒忌,及父亡,母乃生推婢于墓中。宝兄弟年小,不之审也。后十余年,母丧,开墓,而婢伏棺如生,载还,经日乃苏。言其父常取饮食与之,恩情如生,在家中吉凶辄语之,考校悉验,地中亦不觉为恶。既而嫁之,生子。]

[8] [又宝兄尝病气绝,积日不冷,后遂悟,云见天地间鬼神事,如梦觉,不自知死。宝以此遂撰集古今神祇灵异人物变化。名为《搜神记》,凡三十卷。]

[9] [足以发明神道之不诬也。]

[10] [言无异图,然后为信者,固亦前史之所病。然而国家不废注记之官,学士不绝诵览之业,岂不以其所失者小,所存者大乎?]

Publicado em Não categorizado, Tradução | Marcado com , | Deixe um comentário

O TIGRE NO ANO DO DRAGÃO

Resumo: Este ensaio descreve a representação simbólica do tigre na cultura chinesa levando em consideração alguns aspectos antropológicos e literários para demonstrar a importância do felino com status similar ao do dragão neste modelo cultural.

Palavras-chave: Estudos culturais, tigre, cultura chinesa.

A personificação de animais tem sido objeto de estudos em vários campos das Ciências Humanas. Popularmente, a imagem da China é representada pelo dragão, mas o uso do símbolo era uma prerrogativa do imperador, tendo o tigre um papel menor no âmbito da representação simbólica. Nas últimas décadas, os achados em sítios arqueológicos parecem confirmar a hipótese de que o tigre seria um símbolo de utilização mais antiga e de maior prestígio em relação ao dragão[1]. Neste ensaio realiza-se um recorte pelo viés dos modelos culturais com pressupostos “[de] certos modelos de mundo que são amplamente compartilhados pelos membros de uma sociedade e que desempenham um papel importante na compreensão de mundo e no comportamento social de seus membros.”[2]. Através do recorte bibliográfico das áreas antropológica e literária, o ensaio arrola evidências significativas que demonstram a importância do tigre comparada à do dragão neste modelo cultural.

Uma lenda sobre o tigre

Tendo em conta que o habitat natural do tigre é a Ásia, registre-se que, antigamente, o felino era encontrado nas montanhas e florestas do nordeste, sul e sudoeste da China, em duas subespécies, o tigre-siberiano (panthera tigris altaica) e o tigre-do-sul-da-china (panthera tigris amoyensis). O felino é caracterizado pelo seu grande tamanho e pelagem de fundo alaranjado e listras pretas. Para os chineses, a composição das riscas na fronte do felino remete ao ideograma王wáng [rei][3], que lhe confere grau honorífico nesta cultura.

Uma antiga lenda chinesa[4] narra que, em períodos imemoriais, o tigre era o guardião da entrada do Palácio Celestial. A certa altura, as feras terrestres resolveram atacar as aldeias, causando grandes males à população, a tal ponto que nem o guardião terrestre conseguia contê-los, tendo que pedir socorro aos Céus. O felino foi destacado pelo Imperador Celestial para essa missão, que teve de consentir dar ao tigre a devida condecoração, caso conseguisse vencer as feras.

Chegando ao plano terrestre, o tigre constatou que o leão, o urso e o cavalo eram os animais mais ameaçadores à segurança humana. Logo, o felino os desafiou e, com a sua ferocidade, derrotou-as. Outras feras, ao saberem da superioridade do tigre, trataram de fugir para dentro das matas desabitadas, para de lá nunca mais saírem. O povo festejou a vitória e agradeceu ao tigre. Ao voltar ao plano celestial, o Imperador condecorou-o com três listras horizontais (三 sān, [três]) na fronte, simbolizando as três feras. Tempos depois, quando uma tartaruga gigante do mar Oriental liderou hordas de camarões e caranguejos no ataque à terra, mais uma vez foi enviado o tigre para reprimi-las. Ao exterminar a ameaça, o Imperador Celestial riscou uma linha vertical sobre as listras horizontais (三 sān [três]) já existentes na fronte do felino, formando o caractere 王 wáng [rei], conferindo-lhe o título de rei dos animais. Esta lenda corrobora a tradição de costurar a figura de tigre em peças de vestuário, ou esculpida em acessórios que são colocados nas entradas e saídas que funcionam como amuletos para afastar o mal, como alguns exemplos ilustrados nas figuras 1 a 5.

Achados arqueológicos

Nas escavações de sítios arqueológicos, foram achados vasos e máscaras de face humanas com listras de tigre datados de mais dez mil anos, fornecendo evidências para a consideração do felino como totem, ainda anterior ao dragão, criatura mitológica tradicionalmente vinculada como símbolo da China. Cao afirma que “a adoração pelo tigre, indica-o como “ancestral” de tribos primitivas que junto ao felino buscavam proteção para seus membros.[5]

Os achados arqueológicos indicam o Noroeste, que engloba as atuais províncias de Gansu, Qinghai e Shaanxi da China, habitado pelo povo Jiangrong, como a provável região de origem do culto ao tigre. Os antropólogos explicam que esse povo migrou gradativamente para o sul, em direção às províncias de Yunnan, Sichuan, Guizhou e Guangxi, e, para o leste, em direção à planície central[6] chinesa. A escavação de uma tumba em Puyang, na província de Henan, datando de cerca de 6.400 anos, se constitui como a primeira comprovação da reverência ao tigre e ao dragão como totem na cultura chinesa, anterior aos totens do pássaro, cão, lobo, cervo, búfalo e cobra, entre outros. O corpo de um provável rei foi encontrado entre duas figuras do tigre e do dragão, modeladas por conchas. O felino encontrava-se no lado esquerdo e o dragão, no lado direito. Como na tradição chinesa é conferida maior distinção social a esquerda do que a direita, este achado fornece indícios para a hipótese de maior reverência ao tigre como totem em comparação ao dragão, pelo menos até por volta de 8.000-5.000 AEC.

 

Um corpo achado entre tigre e dragão modelado por conchas de 6000 anos atrás. Fonte: Cao (1998:10)

Um corpo achado entre tigre e dragão modelado por conchas de 6000 anos atrás. Fonte: Cao (1998:10)

 

O homem primitivo carecia de conhecimentos científicos e procurava respostas para os fenômenos meteorológicos que o cercavam e que não conseguia explicar. Cao entende que a divinização de elementos da natureza foi a resposta encontrada: trovões faziam o homem imaginar que o céu era habitado por divindades associadas ao tigre devido a seu forte rugir, enquanto raios instigavam a imaginação no sentido do surgimento do dragão mítico, cuja imagem, é baseada no felino: pernas robustas, mas com focinho mais protuberante e rabo mais longo[7]. He possui outra opinião. Para este autor, o dragão é uma extensão da imagem do totem da cobra, associada à imagem do raio.[8]

O grau de honraria atribuído ao tigre e ao dragão foi se modificando ao longo do tempo. Na dinastia Shang (1.600 AEC – 1.100 AEC), a reverência dada ao tigre e ao dragão ainda era equilibrada em grau. Existem achados em escavações arqueológicas que mostram, em cada lado das tampas dos esquifes, gravuras do tigre e do dragão. As bandeiras também exibiam, em cada face, as respectivas figuras, bem como nos utensílios de uso diário, com a posição variada: um vaso poderia ter a tampa com a gravura do dragão e os pés gravados com a do tigre, por exemplo. Esses achados arqueológicos parecem dar indícios que tanto o tigre como o dragão possuíam o dom de conexão entre os espaços terrestre e celestial.[9]

Wang observa que a distinção honorífica entre o dragão e o tigre ocorreu com o maior domínio das técnicas agrícolas e da tecnologia primitiva. Apesar de o tigre suscitar temor, ele é, afinal, um animal que vive nas matas e montanhas e, com a evolução dos instrumentos de ataque e defesa, o felino poderia ser caçado. O dragão, por outro lado, permanecia envolto em uma atmosfera mágica e intangível: a cada relampear, parecia uma cobra que dançava entre as nuvens, liberando uma luz que ofusca os olhos, seguida de chuva que irrigava a terra, ou destruía em pouco instantes o vilarejo, as plantações e os barcos.[10]

O declínio do tigre

De acordo com a revisão da literatura, o dragão ascendeu a uma posição de maior honra quando o primeiro imperador Qin (259 AEC – 210 AEC) unificou a China em 221 AEC. Para consolidar o seu poder político, tomou o dragão como símbolo de sua supremacia sobre os demais seres. O uso desse símbolo se tornou exclusivo do imperador. A representação do dragão foi normatizada e vetada as variações, fato que se perpetuou até o fim do período monárquico (1911) na China. A partir de então, o tigre passou ocupar o segundo lugar de importância na hierarquia honorífica e a simbolizar o 臣chén [súdito], particularmente o militar na cultura chinesa.

Selo de comando militar. Fonte: 1986dingyu

Selo de comando militar. Fonte: 1986dingyu

Cao justifica essa dicotomia através de uma abordagem que relaciona o homem e a natureza. Como dito anteriormente, tendo em conta a limitação de conhecimentos científicos do período, a percepção do raio ou o relâmpago era o prenúncio de uma possível tempestade que poderia salvar ou destruir as plantações.[11] O antropólogo ainda observa que é comum para as sociedades agrícolas, que dependem de condições climáticas para a sua subsistência, reverenciarem entidades míticas relacionadas aos fenômenos meteorológicos. O céu era tido como inatingível e sagrado, lugar onde pretensamente habitava o dragão, enquanto o tigre encontrava-se nas montanhas e podia ser abatido pelo homem.[12] Segundo o antropólogo, a migração de reverência do totem tigre para o totem dragão dos povos da planície central chinesa foi ao natural, devido às condições meteorológicas propiciar o culto ao dragão. Contudo, visando à hegemonia sobre os povos ou etnias marginais de outras regiões, a intelligentsia monárquica teve de tratar de construir a legitimação do poder, através da relação de descendência entre o dragão mitológico e o imperador. Assim, foram reavivadas as lendas da ascensão aos céus do Imperador Amarelo, fundador mítico da etnia Han, montado num dragão[13], e da origem do Imperador Fu Xi, primeiro homem mítico, que teria sido gerado a partir da pisada de sua mãe numa pegada de um dragão[14]. Assim, o tigre passou a ocupar o segundo lugar na hierarquia de distinção social, ao transpor a natureza impetuosa do animal à área militar. Ainda, a outorga do comando militar era dada pelo imperador através de um artefato em forma de tigre, denominada de 虎符hǔfú. O general que vencia muitas batalhas recebia a referência de 虎将hǔjiàng, como uma homenagem a sua bravura e os seus descendentes eram reconhecidos como 将门虎子 [filhos de uma família de tigre]. A lista dos aprovados no sistema imperial de carreira pública era denominada de 龙虎榜 lónghǔbǎng [lista do dragão e do tigre / lista de aprovados do imperador].

Nas últimas décadas, surgiu a mística de que os chineses seriam descendentes do dragão. Conforme Wang[15], por um lado isto pode funcionar como uma palavra de ordem para a unificação dos chineses nas diásporas, mas, por outro, constitui uma meia-verdade, pois do ponto de vista histórico, a nomenclatura apenas se aplicaria aos descendentes diretos do imperador e contraria a característica multiétnicas da sociedade chinesa.

Em função da mística criada, surgiu na imprensa internacional, na década de noventa, o fenômeno do bloco econômico, composto por Hong Kong, Taiwan e Cingapura, entre outros países, que passaram a ser conhecidos como “tigres asiáticos” em oposição ao “dragão chinês”.

A presença do tigre na astronomia chinesa

Desde a dinastia Xia (2.100 AEC – 1.600 AEC), são realizadas observações celestes sistemáticas na China e, nas dinastias Shang e Zhou (1.600 AEC – 771 AEC), os astrônomos calcularam os períodos orbital e sinódico do sol, da lua e de cinco planetas, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, relacionados aos cinco elementos terrestres: Água (Mercúrio), Metal (Vênus), Fogo (Marte), Madeira (Júpiter) e Terra (Saturno)[16]. Combinaram-se os quatro primeiro planetas citados aos quatro pontos cardeais, identificando-os a quatro animais e cores. Wang Chong (27 – 97), filósofo da dinastia Han Oriental, explica que: “O Leste é Madeira, cuja constelação é do Dragão Azul. O Oeste é Metal, cuja constelação é do Tigre Branco. O Sul é Fogo, cuja constelação é do Pássaro Vermelho. O Norte é Água, cuja constelação é da Tartaruga Negra.”[17]

A figura 6, abaixo, representa o antigo mapa astronômico chinês, onde pode ser observada, à direita, a constelação do Tigre Branco:

Antigo mapa astronômico chinês.

Antigo mapa astronômico chinês.

O filósofo Liu An (179 AEC – 122 AEC), considerado o maior conhecedor da astronomia chinesa do período anterior à dinastia Qin (221 AEC – 206 AEC), afirma que a ligação dos cinco elementos aos pontos cardeais mais o centro e às estações não é feita por acaso. Cada um dos cinco elementos está relacionado a uma direção e uma estação do ano e eles são os representantes da categoria de entidades que possuem tais características. A constelação do Imperador Amarelo representa o centro, cujo elemento é a Terra, remetendo às terras férteis da planície central chinesa. As características de regeneração e acolhimento são categorizadas a esse domínio que, por extensão de sentido, são relacionadas ao Senhor de todas as coisas, ou seja, ao imperador. Como o sol nasce ao leste, as características de crescimento são categorizadas no elemento Madeira, representante do reino vegetal, cuja estação é a primavera; o elemento Fogo está relacionado ao sul, devido ao calor excessivo dessa região geográfica no verão na China; o sol se põe ao oeste e, nesse momento o céu se torna dourado – daí a associação ao Metal, elemento que possui a capacidade de purificação e de eliminação, associado ao outono. O elemento Água está relacionado ao norte e ao frio, cuja característica é hidratar e levar à penetração.[18]

Na dinastia Han (206 AEC – 24 EC), identificaram-se estrelas formando um conjunto de vinte e oito mansões, i.e., constelações. A partir da elíptica, utilizaram-nas para dividir o espaço celeste em doze partes que serviam de referência para as observações astronômicas. Estas receberam a denominação de doze animais que são conhecidos como o zodíaco (rato, búfalo, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco), que se relacionam às doze horas[19] e aos doze meses. O período entre as três e cinco da manhã é denominado de 寅 yín, governado pelo tigre e pertence ao elemento Madeira. Por fim, março é o mês do tigre[20].

Cao[21] e Wang[22] observam que, do ponto de vista da astronomia chinesa, a presença do tigre como símbolo de um dos pontos cardeais, demarcado em uma constelação celeste (sendo o terceiro signo do zodíaco na astrologia e constante no sistema de contagem de tempo), é mais uma evidência de importância de status do tigre no modelo cultural chinês, tanto quanto a do dragão.

A presença do tigre na literatura

No verbete referente ao primeiro trigrama 乾 qián [céu] no 易经 Yi Jing [O livro das mutações] (900? AEC) consta que:

a pessoa se torna uma unanimidade, tal como as mesmas frequências de som se tornam uníssonas, as entidades com as mesmas características se atraem: a água escorre em direção às regiões inferiores úmidas, o fogo é atraído pela aridez; da emergência do dragão das águas ao céu, surgem as nuvens; do rugir do tigre, nasce o vento. Assim, quando surge o sábio de grande qualidade moral, ele é reconhecido por todos.[23]

Esta passagem é a referência escrita mais antiga relacionada ao tigre e ao dragão. Liu[24] interpreta-a como sendo o dragão uma criatura das águas, quando a criatura voa aos céus atrai as nuvens, que pertencem ao mesmo elemento. Por outro lado, a força do rugir do tigre estremece os vales e assim surge o vento. Em outra passagem do Livro das mutações diz-se explicitamente que o dragão pertence ao 乾qián [céu], vive entre as nuvens, por isso é 阳yáng [princípio ativo ou positivo]. O tigre produz vento e vive na terra 坤 kūn, por isso é 阴yīn [princípio passivo ou negativo]. Na filosofia taoísta, da combinação das energias positiva e negativa surgiram todas as coisas, Cao[25] e Wang[26] afirmam que, a partir do corolário taoísta, o dragão e tigre são inseparáveis na cultura chinesa, o que é observável através de inúmeros provérbios ou colocações em que se encontram estes dois termos, para expressar o conceito de vivacidade – por exemplo, 生龙活虎shēnglóng-huóhǔ [dragão vivaz e tigre vigoroso], 龙腾虎跃lóngténg-hǔyuè [ascensão do dragão e salto do tigre], 虎啸龙吟 hǔxiào-lóngyín [rugir do tigre e cantar do dragão] – ou para caracterizar pessoas de talento – por exemplo, 龙骧虎步 lóngxiāng-hǔbù [trote do dragão e passo do tigre], 龙骧虎视 lóngxiāng-hǔshì [trote do dragão e olhar do tigre], 藏龙卧虎cánglóng-wòhǔ [dragão escondido e tigre agachado]. Expressões com o termo tigre denotam características de [imponência e bravura] 雄姿虎威 xióngzī-hǔwēi, por exemplo. O dito [colocar asas no tigre] 为虎添翼 wèihǔtiānyì denota somar forças a algo ou a alguém em uma situação já favorável.

Porém, nem toda a expressão que contém o termo tigre possui uma conotação positiva. Cao observa que em Lǐ Jì [O livro dos ritos], um dos cânones da literatura confuciana, é o primeiro e mais antigo escrito que registra a relação do tigre com a tirania[27]. Consta que, durante a passagem de Confúcio e seu discípulo pelo Monte Tai, encontram uma mulher aos prantos ao pé de um túmulo. Ao perguntarem sobre o ocorrido, ela contou que a sua família sempre subsistiu da caça do tigre e que seu sogro e os seus ancestrais tinham todos morrido durante o exercício dessa atividade. Entretanto, seu marido e filho haviam sido acusados injustamente e condenados à morte por não terem aceito o esquema de corrupção proposto por funcionários públicos. Confúcio, ao ouvi-la, comentou que “a tirania é mais feroz do que o tigre”[28] (苛政猛于虎也kēzhèng měng yú hǔ yě). Mais tarde, as fábulas com tigres eram subentendidas a partir deste axioma, como 猱吃虎脑 náochīhǔnǎo [O macaco dourado que comia cérebro de tigre] e 虎逐麋鹿 hǔzhú-mílù [A corça e o tigre]. São contos que narram que, apesar da “ferocidade do tigre”, a habilidade e a inteligência podem vencer a força.[29] Nos dias atuais, a máxima confuciana é produtiva, ainda, para denotar outras situações, como [a inflação é mais feroz do que o tigre] 通胀猛于虎 tōngzhàng měng yú hǔ. Sobre a função das fábulas, abordaremos mais adiante.

De acordo com nossa pesquisa no corpus do Centro da Linguística Chinesa da Universidade de Pequim[30], encontramos quase duzentas colocações com o termo tigre. Segundo nossa análise, a conotação pode ser pejorativa ou não, dependendo do contexto. Quando a expressão combina o termo tigre com os termos lobo, cobra e chacal ou com partes do corpo do felino, remete ao sentido de crueldade, ferocidade e perigo, como 虎口拔牙hǔkǒu-báyá [arrancar dente da boca do tigre], entre outros.

O Shānhǎijīng [O livro da natureza] reúne registros de geografia, hábitos, costumes, lendas e mitos, datados antes do período dos Reinos Combatentes (475-221 AEC). A obra é constituída por relatos orais registrados a partir de expedições por toda a China. Os antropólogos He[31], Cao[32], Wang[33] reconhecem a obra como uma importante fonte para os estudos antropológicos, por fornecer indícios da cultura de veneração ao tigre no Oeste chinês, região no entorno da cordilheira montanhosa Kunlun[34], estendendo-se entre as atuais províncias de Xinjiang a Sichuan.

No volume intitulado Xī shān jīng [Livro das montanhas do oeste], conta-se que no cume da montanha Kunlun reside 西王母 Xī Wángmǔ [Rainha Mãe do Oeste], a figura feminina mais importante no panteão chinês. Ela possui aspecto humano, porém tem rabo e dentes de tigre e tem por hábito rugir. A deusa governa as epidemias, catástrofes, massacres e é conhecida como a deusa da morte e do nascimento. Os registros constam que no seu jardim há uma árvore da eternidade da qual são extraídas essências para produzir as pílulas da imortalidade. No declive da montanha encontram-se dois guardiões, 陆吾 Lùwú, corpo de tigre com nove rostos humanos, responsável pelas fronteiras dos nove reinos celestiais e pelo jardim da Rainha Mãe do Oeste; 马腹 Mǎfù, corpo de tigre e rosto humano, possui um rugir como o choro de um recém nascido. Costuma banhar-se nas águas, deixando as garras na superfície para atrair a atenção e devora a pessoa que se aproxima. A entrada da montanha na face do sol nascente é guardada pelo 开明兽 Kāimíngshòu, que também possui nove rostos humanos, e é conhecido pela sua ferocidade[35]. Na mitologia consta que apenas o arqueiro celestial 后羿Hòuyì, conseguiu despistá-lo para encontrar a Rainha Mãe do Oeste e obter as pílulas da eternidade.[36] No volume ainda constam várias referências às divindades meio homem, meio tigre, que do ponto de vista antropológico, constituem indícios de tribos que reverenciavam o tigre como totem no Noroeste, Oeste e Sudoeste chinês.[37]

Zhànguó Cè [Estratégias dos Reinos Combatentes] e Hán Fēizǐ [O Príncipe Han Fei] registram a disputa pela hegemonia chinesa entre 475 – 221 AEC, época de predomínio das fábulas. Estas eram utilizadas como recurso retórico para o fortalecimento da argumentação por filósofos, príncipes e estrategistas dentre as mais variadas escolas de doutrinas filosóficas, a fim de expor, satirizar ou persuadir alguém em relação a alguma verdade de maneira implícita para preservar a face dos envolvidos. Devido ao uso recorrente, se tornou um gênero autônomo e muito popular. Muitos de seus títulos se tornaram provérbios e expressões idiomáticas empregados em larga escala no cotidiano chinês.[38] Em 老虎求生 Lǎohǔ-qiúshēng [Uma questão de vida ou de morte] é narrada a fábula de um tigre que, ao ser preso numa armadilha, prefere partir a sua pata e fugir do que perder a vida. Em 狐假虎威 hújiǎhǔwēi [A raposa e o tigre] a fábula remete a um tigre que, por desconhecer seu poder e força, é enganado pela raposa. Em 两虎相斗 liǎnghǔ-xiāngdǒu [Tigre versus tigre], narra-se como tirar melhor proveito da briga entre duas feras, sem desperdiçar muito esforço. Por fim, 三人成虎 sānrén-chénghǔ [Como um boato se torna realidade] é uma parábola que fala sobre o risco de não conter um boato, tornando-o uma verdade.

Na Arte da Guerra[39], Sunzi, ao explicar o axioma de não atacar um inimigo forte de frente, utiliza-se de uma metáfora para se fazer melhor entender. Diz que é necessário [fazer o tigre descer da montanha] 调虎离山diàohǔ-líshān, por que na planície, longe de seu habitat natural, ele se torna a tal ponto frágil que pode ser atacado até pelo cachorro 虎落平阳被犬欺hǔluò-píngyáng bèi quǎn qī [tigre na clareira é atacado até pelo cão / De árvore caída, todos fazem lenha]. Da mesma forma, se quiser saber onde está localizado o quartel-general do inimigo, [solte o tigre de volta para a montanha] 放虎归山 fànghǔ-guīshān, mas também poderá se tornar uma futura ameaça.

Taiping Guangji [Registros de Taiping] foi organizado por Li Fang et al. no terceiro ano do reinado Taiping (978). A obra reúne toda a literatura de cunho sobrenatural e maravilhosa produzida até a dinastia Song (960 – 1279). A obra de 500 volumes é organizada por 92 temas, tais como deuses, assombrações, espíritos, animais e criaturas, contos budistas e taoístas, entre outros. Dentre estes, seis volumes e mais de sessenta contos têm como o tema o tigre. Um grande número de narrativas refere-se à metamorfose de homens em tigre, como castigo por sua arrogância ou violência, sendo então condenados a devorar outros homens. Entretanto, mesmo transformados em feras, não acometem atrocidades contra seus pais ou seus filhos. Daí surge o provérbio 虎毒不食其子 hǔ dú bù shí qí zǐ [O tigre é sinistro, mas não come a sua cria], revelando uma dimensão de limite de crueldade personificada no animal.

É muito provável que 水浒传 Shuǐhǔ Zhuàn [Na Ribanceira somos todos irmãos], um dos quatro cânones da literatura clássica chinesa, seja o romance com o maior número de referências ao tigre. Há três passagens muito conhecidas. Um episódio iguala a valentia do homem à do tigre: Wu Song, no caminho de casa, bebe dezoito cumbucas de aguardente e, ao saber que o vilarejo estava sob a ameaça de um tigre, resolve eliminá-lo. Ao encontrar a fera no meio do caminho, a mata a socos. A personagem Sun Er-niang é referida como 母老虎mǔlǎohǔ [tigresa], termo que possui um sentido pejorativo nesta cultura, referindo-se às mulheres muito bravas, mal-humoradas e que dominam a relação matrimonial. Finalmente, o terceiro episódico refere-se a quando Wu Da hesita em capturar um traidor e outra personagem exclama: “Está levando medo de um tigre de papel?”. A expressão popular é utilizada para se referir a uma falsa ameaça e se tornou famosa em 1946, quando Mao Zedong foi entrevistado quanto ao seu temor diante das tropas nacionalistas e respondeu que eles não se constituíam em ameaça, por serem “tigres de papel”.

Pu Songling (1640-1715), famoso escritor da literatura fantástica e autor de 聊斋志异 Liáozhāi zhì yì [Contos extraordinários de Liaozhai], narra, em “O tigre arrependido de Zhaocheng” [40], a estranha estória de um tigre que, ao devorar o único filho de uma velha, aceita a pena de tomar conta da senhora até a sua morte. Segundo a nossa interpretação sob um viés sócio-político, este conto soma à personificação da tirania governamental e ao respectivo “senso de limite de ferocidade” do tigre, narrado em contos de períodos anteriores citados acima, o “senso de responsabilidade” pelos atos praticados pelo felino.

Ji Yun (1724-1805), autor de 阅微草堂笔记 Yuèwei cǎotáng bǐjì [Anotações no estúdio de Yuewei], era mandarim e exerceu função pública na província de Xingjiang, Oeste chinês, onde colheu várias estórias relacionadas ao tigre. Em “Tang, o caçador”, por exemplo, narra a estória de como a habilidade adquirida pela prática e a experiência pode vencer o maior felino terrestre.

Este ensaio descreveu a representação simbólica do tigre na cultura chinesa através de um recorte antropológico e literário para demonstrar a importância do felino no modelo cultural chinês. A revisão bibliográfica indica que a civilização chinesa surge a partir da interação de tribos que reverenciavam principalmente o dragão e o tigre, além de outros entes naturais. O animismo é motivado pelo conhecimento incipiente do homem primitivo em relação aos fenômenos meteorológicos e naturais que o circundavam. De acordo com os achados arqueológicos, em tempos remotos era conferida a mesma distinção honorífica, ou havia uma ligeira superioridade do tigre em relação ao dragão. Entretanto, com o avanço do domínio tecnológico, o tigre se tornou menos ameaçador do que o dragão. Esta criatura mitológica era considerada o senhor dos raios e da chuva – condição climática fundamental da sociedade agrícola que se estabelecia. Assim, quando o primeiro imperador chinês unificou a China como uma nação, o dragão foi tomado como o símbolo de exclusividade imperial até o fim da monarquia. Neste contexto e seguindo a tradição, o tigre se torna o símbolo favorito do povo, sinal auspicioso contra o mal. Peças de vestuário, acessórios e artefatos são produzidos como amuletos. O tigre ao se tornar o segundo símbolo em importância na escala de distinção social, passa a representar o poder militar ou a esperança a sua ascensão, inferior somente à importância do dragão. Por outro lado, o termo tigre, por extensão de sentido, pode ser empregado para desvelar a opressão, ou coisas e eventos perigosos, bem como para descrever ações e pessoas de bravura. Por fim, na língua e literatura chinesas, constatam-se muitos provérbios e colocações contendo os termos tigre e dragão, o que, de um prisma antropológico, reforça a relação de complementaridade e importância simbólica destas entidades neste modelo cultural.

 

On tigers at Chinese year of dragon

Márcia Schmaltz

University of Macau

Abstract: This paper describes the symbolic representation of the tiger in the Chinese culture through anthropological and literary approaches to demonstrate the importance of the feline with a status similar to the dragon, in this cultural model.

Keywords: Cultural studies, tiger, Chinese culture.

Referências

CAO, Zhenfeng. Shén hǔ zhènxié [O tigre divino retém o mal].Beijing: Shehui kexue wenxian, 1998, 294 p.

CAPPARELLI, Sérgio; SCHMALTZ, Márcia. 50 fábulas da China fabulosa. Porto Alegre: L&PM, 2007, 144 p.

CHEN, Qinghao. Zhōngguó mínjiān gùshì quánjí [Contos populares chineses completos]. Taipei: Yuanliu, 1989, 513 p.

HAN, Fei. Hán Fēizǐ [O Príncipe Han Fei]. Disponível em: http://ctext.org/hanfeizi/zh. Acesso em 01 de fevereiro de 2012.

HE, Xingliang. Túténg wénhuà yǔ rénlèi zhū wénhuà de qǐyuán [A Cultura do totem e a origem da cultura humana].Beijing: Zhongguo Wenlian, 1991, 435 p.

HOLLAND, Dorothy; QUINN, Naomi. Cultural Models in Language and Thought. Cambridge: CUP, 1987, 400 p.

Lǐ jì [O livro dos ritos]. Disponível em: http://ctext.org/liji/zhs. Acesso em 02 de fevereiro de 2012.

LIU, An. Huáinánzǐ [O príncipe de Huainan]. 2ª edição. Taipei: Shibao wenhua, 1998, 526 p.

LIU, Xiang. Zhànguò Cè [Estratégias dos reinos combatentes]. Disponível em: http://ctext.org/zhan-guo-ce/zh. Acesso em 31 de janeiro de 2012.

SCHMALTZ, Janete; SCHMALTZ, Márcia. Histórias da Mitologia Chinesa. São Paulo: Livro Aberto/Xerox, 1999, 34 p.

SCHMALTZ, Márcia. Metáfora conceptual de tempo em fábula chinesa. Organon, Porto Alegre, UFRGS, n.43, v. 2, p. 35-52, 2007.

SCHMALTZ, Márcia; Sérgio Capparelli. Contos sobrenaturais chineses. Porto Alegre: L&PM, 2010, 127 p.

Shānhǎijīng [O livro da Natureza]. Haikou: Nanhai, 2007, 597 p.

SHI, Nai’an; LUO, Guanzhu (1300?- 1400?). Shuǐhǔ Zhuàn [Na Ribanceira somos todos irmãos]. Beijing: Zhongguo wenxue, 1997, 931 p.

SIMA, Qian. Shi ji [Registros da História].Taipei: Dingwen, 1997, 389 p.

SUN, Wu. Sūnzi būngfǎ [A arte da guerra]. Disponível em: http://ctext.org/art-of-war/zh. Acesso em 30 de janeiro de 2012.

Yì Jīng [O livro das Mutações]. Disponível em: http://ctext.org/book-of-changes/yi-jing/zhs. Acesso em 05 de fevereiro de 2012.

WANG, Chong. Lùn héng [Sobre a balança]. Wuhan: Universidade Politécnica de Wuhan, 2001, 258 p.

WANG, Fenling. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China]. Changchun: Universidade Normal do Nordeste, 1998, 369 p.


[1] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal] e WANG Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[2] HOLLAND & QUINN. Cultural Models in Language and Thought, p. 4.

[3] Os ideogramas são escritos em chinês simplificado e as transliterações fonéticas do chinês para o português estão em pinyin, grafia adotada oficialmente pela República Popular da China desde 1964 e 1979, respectivamente. Todas as traduções são de responsabilidade da autora. As acepções ou traduções livres do chinês para o português estão sinalizadas entre parênteses angulares.

[4] CHEN. Zhōngguó mínjiān gùshì quánjí [Contos populares chineses completos].

[5] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal] e WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China], p.8.

[6] Região do curso médio e inferior do rio Amarelo, que compreende a província de Henan, o centro da província de Shaanxi, o sul das províncias de Hebei e Shanxi, o oeste da província de Shandong e o sudoeste da província de Jiangsu, é tida como o local do surgimento da etnia Han.

[7] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p.8.

[8] HE. Túténg wénhuà yǔ rénlèi zhū wénhuà de qǐyuán [Cultura do totem e a origem da cultura humana], p. 63.

[9] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 219.

[10] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China], p. 115.

[11] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 223.

[12] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 227.

[13] Shānhǎijīng [O livro da natureza], p. 54.

[14] Shānhǎijīng [O livro da natureza], p.513-514.

[15] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China], p. 23.

[16] SIMA. Shǐ jì [Registros históricos], p. 111.

[17] WANG. Lùn héng [Sobre a balança], p. 46.

[18] LIU. Huáinánzǐ [O livro do príncipe de Huainan], p. 124.

[19] O sistema chinês para a contagem do dia equivalia a um período de duas horas ocidentais até a dinastia Song (960-1279).

[20] WANG. Lùn héng [Sobre a balança], p. 47.

[21] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal]

[22] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[24] LIU. Huáinán [O livro do príncipe de Huainan], p. 121.

[25] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal]

[26] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[27] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 6.

[29] CAPPARELLI & SCHMALTZ. 50 fábulas da China fabulosa.

[31] HE. Túténg wénhuà yǔ rénlèi zhū wénhuà de qǐyuán [Cultura do totem e a origem da cultura humana].

[32] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal].

[33] WANG. Zhōngguó hǔ wénhuà yánjiù [Uma investigação da cultura do tigre na China].

[34] Na cosmogonia chinesa, é onde surgiram todas as coisas e o cume é a morada dos deuses e imortais, onde se localiza o mítico Palácio de Jade de Huangdi, o Imperador Amarelo.

[35] Shānhǎijīng [O livro da natureza].

[36] SCHMALTZ & SCHMALTZ. Histórias da Mitologia Chinesa.

[37] CAO. Shén hǔ zhèn xié [O tigre divino retém o mal], p. 112.

[38] SCHMALTZ. Metáfora conceptual de tempo em fábula chinesa,

p. 35.

[40] SCHMALTZ & CAPPARELLI Contos sobrenaturais chineses.

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário

Peônia, a rainha das flores

As flores constituem um importante elemento ornamental dentro do sistema simbólico dos rituais humanos, é difícil de imaginar um casamento, uma inauguração ou um ano novo, por exemplo, sem a presença das flores, não é mesmo? As flores são um símbolo auspicioso que sinaliza o desejo de frutos futuros, como a extensão de sentido do ciclo das plantas às nossas vidas. Quando adquirimos flores a cada entrada do Ano Novo Chinês, esse acto é a materialização da nossa vontade por um novo ano repleto de realizações.

Dentro do folclore chinês, as flores corporificam as quatro estações do ano, e as referencias não são unânimes: a íris ou a magnólia representam a primavera, a peônia e a lótus servem como alegoria para o verão, o crisântemo, o Outono e a ameixeira, o inverno. Ainda é possível de se encontrar listas relativas às flores dos doze meses do ano, que variam de região para região, de acordo com o que a natureza disponibiliza. Entretanto, o que há de comum entre as listas, como nos conta Eberhard (2000, 110), é o damasco figurar como a flor do segundo mês lunar; o pessegueiro, do terceiro mês lunar; a flor de lótus, do sexto mês lunar; a canela chinesa, do oitavo mês lunar e o crisântemo, do nono mês lunar.

Proveitos políticos também foram tirados das flores. O presidente Mao levantou a Campanha das Cem Flores (百花齐放,百家争鸣) (1956-57), assim chamada pela frase: “Deixe cem flores florescerem juntas, deixe cem escolas de pensamento competirem”, visando a promover uma maior oxigenação das ideias e críticas dentro do regime, numa analogia do pensamento à planta, que desabrocha em flor de ideias.

Mas qual seria a flor representante do Império do Meio? Isso é tão controverso, que até hoje não se chegou a nenhuma conclusão. Numa rápida retrospectiva da história contemporânea chinesa, constata-se que a peônia foi declarada como a flor nacional no final da dinastia Qing, em 1903, e, revogada, em 1929, pelo Governo Republicano que promulgou a ameixeira em seu lugar, mas que deixou de ser um símbolo nacional, com a proclamação da República Popular da China, em 1949, quando todos os símbolos nacionais anteriores foram revogados, e nenhuma decisão foi tomada em relação à flor nacional. Apenas mais tarde, em 1981, que alguns botânicos reivindicaram uma definição quanto à flor símbolo da nação. Nenhuma decisão fora tomada, além de ter suscitado calorosos debates em programas de auditórios televisivos. Em 1986, durante a 4ª sessão plenária da 6ª Assembleia Nacional Popular, mais de sessenta delegados propuseram a ameixeira como a flor nacional. O projecto não foi apreciado. Mas, em 1994, durante a 2ª sessão plenária da 8ª Assembleia Nacional Popular, foi aprovado o Projecto de Lei 440 que solicitava uma definição sobre a flor nacional. O projecto foi encaminhado ao Ministério da Agricultura, que por seu turno constituiu uma comissão encabeçada pela Associação Chinesa de Floriculturistas para a análise da matéria. Não muito tempo depois, se promoveu uma pesquisa dentre as 31 províncias, regiões e municípios directamente subordinados ao Governo Central, bem como debates publicados na revista da referida associação, que mobilizou várias opiniões de diversos estratos sociais chineses.

O resultado da pesquisa revelou uma multiplicidade de opiniões, onde 18 províncias indicaram a peônia e 13 indicaram quatro flores, simbolizando cada uma das estações, nomeadamente a peônia, a ameixeira, o crisântemo e a flor de lótus, sendo que duas províncias propuseram a orquídea no lugar da lótus. Ao final, a comissão propôs unanimemente a peônia como a flor nacional chinesa, tendo outras quatro flores representantes das estações: a ameixeira representando o Inverno, a orquídea representando a Primavera, a lótus, o Verão e o crisântemo, o Outono. Contudo, o Ministério da Agricultura não encaminhou para a aprovação da Assembleia Nacional Popular, o que significa dizer que, até o momento, a China não possui uma flor como símbolo nacional oficial.

Enfim, independente duma aprovação oficial, a peônia apresenta-se como uma flor importante dentro da simbologia chinesa, junto à flor de lótus, à ameixeira, ao crisântemo e à orquídea, só para citar algumas. Então, depois dessa introdução, dedicaremos a falar da rainha das flores, a peônia.

Informações botânicas

A peônia pertence a família Paeoniaceae (芍药) e o seu porte é entre 0,5 a 1,5 metros de altura. As flores são grandes, delicadamente perfumadas e podem ser simples, semidobradas e dobradas, que desabrocham no final da primavera e início do verão, por um período de cerca de vinte dias. Entre as cores, há a branca, a rosa, a vermelha e a púrpura. Geralmente, a flor possui cinco sépalas e o número de pétalas são entre cinco a dez. Às vezes, encontra-se muitas espécies com um maior número de pétalas, devido ao surgimento de flores duplas. A sua reprodução ocorre através de sementes pretas brilhantes que nascem aos milhares em vagens.

A peônia é também utilizada como planta medicinal, as raízes da espécie P. lactiflora (Peônia Chinesa) foram muito preconizadas no tratamento de convulsões e o seu cultivo data mais de dois mil anos, onde se encontra o seu registo num compêndio de ervas medicinais localizado num túmulo da dinastia Han do Leste (25-220). Sendo uma espécie natural do continente chinês, pode ser encontrada do leste ao oeste, da província de Shandong, passando por Henan, Sichuan, Yunnan chegando até ao planalto do Tibete. Com a destruição progressiva das florestas, actualmente é mais difícil de encontrar peônias selvagens.

O cultivo da peônia

O registo mais antigo do cultivo como flor ornamental data da dinastia Nan Bei (420-581) e se torna uma verdadeira febre nacional na dinastia Sui (581-618). Porém, é na dinastia Tang (618-907) que a peônia recebe a alcunha de “a rainha das flores”, quando um certo camponês sob às ordens do imperador Tang Xuanzong (唐玄宗) (712-713) teria plantado mais de dez mil peônias de todas as cores no monte Li (骊山) em Xi’an. É nesse período que a peônia se torna a fonte de inspiração artística, principalmente na pintura e na literatura.

O cultivo das peônias é apreciado também de maneira diferente entre as etnias chinesas, a Tujia (土家族) e a Bai (白族) que costumam plantar ao menos três a cinco pés da espécie em seu jardim, como um símbolo auspicioso e de prosperidade. Outras etnias como a Tibetana (藏族) preferem subir às zonas montanhosas para apreciar as peônias selvagens.

A peônia nas artes plásticas

A peônia é um tema recorrente nas gravuras chinesas devido à forma exuberante e delicada de sua flor. O registo mais antigo de sua pintura remonta à dinastia Nan Bei ao calígrafo Yang Zihua (杨子华). Quando na altura da dinastia Tang, são inúmeros os artistas que a tomam como motivo. Destaque especial ao Bian Luan (边鸾) que as pintava com traços sutis e vivazes. Nas Cinco Dinastias (907-960) a leveza da pena de Xu Xi (徐熙) desenhava peônias atraentes e singulares, especialmente a gravura com uma orquídea (yùlán玉兰), uma macieira silvestre (hǎitáng海棠), uma peônia (mǔdān牡丹) e um osmantus (guìhuā桂花) que compõem uma nova expressão, através de trocadilhos entre os ideogramas homófonos (sinalizados em negrito, acima) uma alusão à 玉堂富贵 (yùtángfùguì), isto é, no salão (táng堂) de jade (yù玉) reina a riqueza (fù富, outra designação para a peônia) e a nobreza (guì贵).

Já Xu Wei (徐渭) da dinastia Ming (1368-1644) abusou da técnica da tinta da china espirrada (泼墨) conferindo às Peônias traços vigorosos e desenvoltos. Contemporaneamente, Wang Xuetao (王雪涛) (1903-1982) teve as flores como um de seus temas predilectos e conferiu à Peônia um aspecto dinâmico e único, enquanto Qi Baishi (齐白石) (1864-1957) preferiu desenha-las de forma minimalista. Muitas vezes, a pintura da Peônia é acompanhada com a inscrição caligráfica “beleza nacional e fragrância celestial” (国色天香).

A peônia na literatura

No Livro dos Cantares (诗经) da dinastia Zhou (1100 anos a.C.), encontra-se uma estrofe pela qual declama a dedicatória da flor entre jovens donzelas graciosas, denominada na altura como shaoyao (芍药).

Conforme a totalização de Yang (1985), há mais quatro centos poemas dedicados à peônia, sendo 125, de mais de cinquenta poetas da dinastia Tang, entre eles, Li Bai (李白), que compara a peônia à beleza da concubina favorita do imperador Xuanzong e Bai Juyi (白居易), que exalta a polvorosa devoção dos citadinos durante o período de floração da peônia. Ouyang Xiu (欧阳修), poeta da dinastia Song (960-1279), também entoa o costume dos habitantes de qualquer classe social de Luoyang de apreciar as peônias.

Em termos de dramaturgia, destacamos a ópera O Pavilhão das Peônias 《牡丹亭还魂记》de Tang Xianzu (汤显祖), da dinastia Ming. O drama exalta a coragem dos jovens contra aos costumes da sociedade confuciana feudal, especialmente contra ao casamento arranjado. Claro que não poderíamos deixar de mencionar a lenda Os Galanteios de Lü Dongbin para Peônia《吕洞宾戏牡丹》, que narra a corte dum dos oito imortais daoista mais mundano dentro do panteão chinês, à fada Peônia para obter o grampo sagrado da Rainha Celestial para salvar uma aldeia. (Vide o conto traduzido adiante)

Em termos de romance, há uma passagem sobre as peônias em Flores no Espelho《镜花缘》de Li Ruzhen (李汝珍), da dinastia Qing. O livro inicia pelo episódio da única imperatriz da história chinesa, Wu Zetian (武则天), que após ascender ao trono, ordena o desabrochar de todas as flores em pleno inverno, e, apenas a peônia recusa-se a obedecer, o que lhe rendeu a permanência no reino celestial, junto à ameixeira que floresceu no seu período habitual. Como punição por aflorarem antes de época, o deus das flores junto com as fadas florais foram punidos com a reencarnação ao mundo terrestre pelo Supremo Celestial.

Simbologia

A liberalidade do emprego de simbologias é uma das características marcantes da cultura chinesa. A peônia devido ao seu aspecto exuberante e elegante remete à simbologia da nobreza e da riqueza. Na próspera dinastia Tang foi tomada como flor nacional e durante o período de floração, Xi’an era tomada pelo carnaval. A partir de então, a Peônia se tornou sinónimo de ventura e prosperidade. Principalmente, relacionada à última, pois o aspecto farto e erecto da flor passa-nos uma impressão de dignidade e e realeza. Muitas vezes a Peônia é representada junto a uma outra flor, fruta ou árvore, que associará a sua simbologia com a de outra planta, por exemplo, quando desenhada com hibiscos, simbolizam a abundância em riqueza e reputação. Se encontrar um quadro com Peônia e maçãs, “a sua casa é rica e goza de bom crédito”, Peônias junto aos pêssegos representa riqueza e longevidade.

Prototipicamente, a palavra flor remete à imagem da peônia, como sinônima. Conquanto a peônia vermelha é a mais admirada, a branca simboliza as raparigas inteligentes, arrebatadoramente belas. Na música popular chinesa é recorrente ouvir-se: “Espero pela florescencia da peônia no jardim” ou “quando a peônia desabrocha, sua fragrância espraia-se a mil milhas, atraindo borboletas de todos os lugares”. Essas passagens são uma clara referência à volúpia, onde as borboletas se referem aos rapazes.

O interessante de se observar é que, independente da etnia ou do sistema político, a peônia é como um ponto de confluência à unidade cultural chinesa.

Onde apreciar as peônias

As Peônias desabrocham entre os meses de abril e maio. Todos os anos — entre os dias 10 de abril a 10 de maio – é realizado o Festival das Peônias em Luoyang, Henan e em Heze, Shandong,. Em Macau, podemos apreciar as flores nos jardins de Lou Lim Iók.

Bibliografia:
Eberhard, Wolfram (2000) A Dictionary of Chinese Symbols. Londres: Routledge.
Fairbank, John K., Goldman, Merle (2006) China: uma nova história. Porto Alegre: LP&M.
Shijing [O Livro dos Cantares] (1979). Tradução de Joaquim A. Guerra. Macau: Jesuítas Portugueses.
Tang, Xianzu [汤显祖] (2006). 《牡丹亭还魂记》[O Pavilhão das Peônias] in Chen, Z.Y e Wu, Y.S. (Org.) 《中国文学名著导读》 [Guia das Obras Clássicas Chinesas]. Wuhan: Changjiang, p. 517-524.
Wei, Ying-Tao [魏迎涛] (2006) “中国传统的牡丹图案装饰与设计” [Formas da Peônia na gravura tradicional chinesa] in Revista do Instituto Tecnológico de Zuzhou 20 (5), p. 9-11.
Yang, Maolan [杨茂兰] (Org.) (1985)《历代咏牡丹诗词四百首》[Quatro centos poemas de todos os tempos dedicados à Peônia]. Beijing: Zhongguo Zhanwang.
Página da Assembleia Nacional Popular, disponível em: http://www.npc.gov.cn/, acessada em 12 de Março de 2011.
Página de caligrafistas e pintores chineses, disponível em: http://www.zgmhj.com/ldmj.htm, acessada em 12 de Março de 2011.

Publicado em Não categorizado | 7 Comentários